Natureza da Mordida
 



Natureza da Mordida

por Sandra Radin

Em "Natureza da Mordida", mais uma vez Carla Madeira nos brinda com um livro que trata dos conflitos próprios do ser humano, como já o havia feito em "Tudo é Rio" e "Véspera". Ela faz um mergulho profundo nas relações, na vida como ela é, se utilizando de uma narrativa fluida e poética. Demonstra, com a maestria que lhe é peculiar, o quanto as relações podem nos deixar marcas e até mesmo afetar nosso vir a ser de forma determinante. Ela se vale de duas vozes narrativas, Bea e Olivia, a primeira uma senhora psicanalista aposentada que já apresenta sinais de demência e, a segunda, uma jovem jornalista. Duas vozes, dois estilos narrativos.

O romance conta a história das protagonistas Bea e Olivia, duas mulheres fortes, de idades e histórias distintas. Em comum: o amor, a leitura e a escrita. Olivia, jovem marcada por abandono e perdas; e Bea, que também sofre a dor da perda e do luto.

As duas se encontram num sebo improvisado numa banca de revistas na cidade de Belo Horizonte, local que se torna o ponto do encontro semanal entre as duas, e no qual vão tecendo, pouco a pouco, o vínculo de amizade que as unirá.

"O que você não tem mais que te entristece tanto?"

É com essa pergunta/provocação que Bea aborda Olivia ao encontrá-la sentada na mesma que considerava sua. Essa provocação impertinente de uma estranha será o início da construção de uma intimidade crescente, permeada pela confissão das dores provocadas pelas mordidas que levaram no decorrer de suas existências.

Elas irão descobrir semelhanças e afinidades na medida em que compartilham suas histórias uma com a outra, as mordidas que a vida lhes deu. A escuta, o acolhimento de ambas faz com que, ali, nasça não apenas uma amizade, mas um vínculo permanente entre elas. Descobrem juntas que na vida, em algo momento, somos todos alvos da mordida; e que a vida, ela vem de forma inesperada e amputa partes importantes de nós. O encontro delas se dá em torno da palavra, a palavra escrita, a palavra verbalizada e a palavra não dita.

A história é toda narrada através dos encontros das duas. Nos primeiros encontros o leitor descobrirá uma história recheada de lacunas, mas lá pelo décimo segundo encontro, tudo começa a fazer sentido, a ser revelado, e as histórias são arredondadas, amarradas. Segundo a autora, isso foi feito de forma proposital para gerar angústia e sensação de perda no leitor.

Não tem como não se emocionar com essa história com um fim arrebatador e tocante demais. Ao final percebemos que não se trata apenas de perdas, ausências, arrependimentos, mágoas, desejos, mas também do quanto somos capazes de nos reconciliarmos com quem nos abandonou e feriu: mostra a capacidade que temos de acolher, compreender e perdoar.

 

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