O livro O avesso da pele, do genial Jeferson Tenório é um mergulho profundo na alma humana. O livro além de trazer questões raciais importantes para o debate público, ousa ir além, aprofunda, com coragem, questões que estão enraizadas na sociedade brasileira, como racismo e machismo. Além de trazer temas complexos como violência doméstica, violência policial, nosso precário e defasado ensino público, masculinidade tóxica, paternidade etc.
Sua narrativa inicial é uma busca pela figura do pai ausente. Infelizmente muitos de nós negros crescemos sem a figura paterna para nos espelhar. Porém, como se fosse um espelho, na busca de conhecer o pai e sua família, o personagem olha, invariavelmente para si mesmo. E assim inicia-se seu autoconhecimento. O livro é uma conversa entre negros e negras. Quando se aborda a questão da autoestima e a dificuldade que temos de ver beleza em nós, lembramos que a escola é, muitas vezes, um lugar onde nossa autoestima é pisoteada com apelidos racistas dados por outras crianças que nos rodeiam.
Ao abordar relacionamentos inter-raciais, nós negros e negras que já namoramos pessoas brancas nos vimos em quase todas as situações relatadas desde o início, quando dizemos que raça não importa, mas sim o amor, ou comparamos nossos tons de pele e achamos bonita a mistura. Nos vimos também, quando somos o único negro em meio a família branca e então já somos chamados de negão, pois o racismo tem como seu principal instrumento nossa desumanização e para isso a retirada de nosso nome é fundamental, mesmo quando parece ser uma simples brincadeira.
Ao mesmo tempo, o livro não esconde os problemas e tensões que relações entre pessoas negras também geram. Traz assim, uma provocação que mostra que apesar de sermos negros, não somos iguais. A diferença de pensamentos, de forma de ver o mundo, de ideologia, também nos atravessa, assim como atravessa as pessoas brancas. Com isso, o autor deixa claro que entende que somos sim, plurais e diversos.
Tenório também aborda o racismo recreativo, termo utilizado por Adilson Moreira, autor do livro Racismo Recreativo, onde ele demonstra que piadas e brincadeiras são usadas como forma de normalizar o racismo estrutural reproduzido pela sociedade brasileira secularmente.
O livro aborda a morte com delicadeza, mas sem esquecer a face cruel que a morte sempre tem e sempre terá, a dor se impõe, como ressalta em uma de suas frases. O livro impressiona pela complexidade de seus personagens, o mergulho que faz em cada um deles, buscando assim a humanidade que cada um de nós carregamos. Mostra seus defeitos e suas qualidades, suas fraquezas e suas vitórias e deixa claro que somos seres incoerentes e que isso é próprio do ser humano.
Diferente do estereótipo racista que descreve homens negros como seres violentos e sem sentimentos, os personagens negros são extremamente sensíveis e afetuosos.
O livro nos chama a reflexão, pois como diz um dos personagens o mundo branco nos tirou quase tudo, o que nos resta é pensar. Pensar é a forma mais transgressora de resistir a um Brasil que nos mata pouco a pouco, dia após dia. E para isso, não basta olharmos para nossa pele apenas, temos que olhar para dentro, e lá encontraremos a chama do fogo sagrado da liberdade que mora em todos nós.