Escrevi há algum tempo uma crônica que abordava o seguinte tema: a vida pode imitar a arte? Na ocasião, eu me referia à novela televisiva, patrocinada pela Globo, em que o protagonista permanece por vários capítulos dado como morto, devido a ferimentos terríveis. Depois de um tempo abusivo da paciência do telespectador, ele reaparece vivo e curado dos ferimentos, e a história prossegue em direção ao final feliz, como costuma acontecer nas novelas.
Mas não foi o que ocorreu. O ator que protagonizava num intervalo das filmagens sai para um banho no rio São Francisco e, sem motivo aparente, afoga-se e morre, desta vez de verdade, sem a ilusão da cena ficcional. O país chora a morte do homem/personagem. O diretor e mais o set aniquilam-se perante o infortúnio. A morte é um fato indiscutível e terminal. Mas a ficção deve continuar. Logo é criada a cena final e a história retorna ao imaginário para o aplauso do público.
No Grupo de Criação Literária que coordeno, tivemos a oportunidade de trabalhar o texto literário baseado neste fato um tanto inusitado. Foi uma experiência interessante concluir que a vida pode, sim, imitar a arte.
Mas foi nesta semana, no alvorecer do novo ano, que me deparei com algo semelhante. Nada trágico, felizmente, bem ao contrário. É que fui tomada por outra dúvida: poderia a arte antecipar-se à vida? Pelo menos, foi o que julguei ter acontecido com um dos livros ficcionais de minha autoria e uma reportagem veiculada no jornal.
Devo admitir o fato de eu não acompanhar de perto os noticiários sobre adoção por casais que querem adotar e crianças e adolescentes que anseiam por serem adotados. A não ser quando me cai a notícia no colo, como aconteceu no último domingo. Então me interessei e me comovi com a história real de um casal de possíveis pais e de uma adolescente nos seus 17 anos de casa-lar. Uma história real de tocante beleza.
Na reportagem, sou informada a respeito de um mecanismo que vem sendo, hoje, utilizado no sentido de agilizar os processos de adoção. Muitas vezes demorados com idas e vindas, esperanças e decepções. Trata-se do aplicativo Adoção uma iniciativa do Poder Judiciário em parceria com o Ministério Público e a PUCRS. O aplicativo apresenta, além das informações básicas, fotos e vídeos de quem está à espera de uma família, disponíveis em algumas versões e prontos para serem baixados. Possibilita que os candidatos a pais visualizem as fotos e os vídeos até decorar as carinhas e repassar os perfis dos pequenos e os nem tanto pelo tempo que interessar.
Quando os pais desta história de vida depararam com o perfil e o rosto de sua menina eles já começaram a adotá-la. Pronunciaram com emoção é nossa filha! Igualmente, a adolescente sentiu, ainda na casa-lar, sensação semelhante são meus pais! Experimentava pela vez primeira a sensação maravilhosa de pertencimento ao depositar o olhar nas fotos dos pais adotivos.
No meu livro lançado em 2012, intitulado O quadro na parede, eu criei a personagem Alice uma menina extraordinária que é adotada por pais igualmente extraordinários. Sem ter sido abduzida por qualquer instinto ou premonição de que um dia, em pleno 2019, eu viria a saber da existência deste processo de fotos e vídeos veiculados dentro de um sistema para adoção, eu criei também a minha Casa-Lar dos Pequeninos este o nome do orfanato no livro que acolheu a personagem Alice até os três anos de idade. E a fez escolher os pais adotivos por meio de um álbum de fotos que a entidade criara.
Em O quadro na parede, a mãe de Alice é chamada às pressas pela diretora do Lar: Venha logo que Alice acaba de lhe apontar no álbum e está pedindo que sua mamãe venha buscá-la.
Daí que, frente à reportagem, me pergunto como eu pude antecipar-me, ter esta antevisão de uma realidade até então desconhecida, estando, naquela ocasião em tempo passado, restrita à arte literária com exclusividade.
Nas escolas, em conversas com adolescentes que me perguntam de onde tirei tais ideias para escrever O quadro na parede, na maioria das vezes, fico sem resposta plausível. Escritores costumam ser tomados por dúvidas e incertezas quando lhe fogem explicações concretas a respeito dos processos de criação de uma obra literária.
Quanto ao meu processo, vou passar a consultar meu oráculo. Quem sabe mais previsões venham por aí!
PS: deixo aqui o email de utilidade pública: adocao@tjrs.jus.br