Dica de Escrita

A escrita de um livro de distopia

Otávio Definski


Inspirado em obras distópicas, Terra Vazia questiona o uso dos eletrônicos e das redes sociais no controle da população, o que nos leva a uma profunda, urgente e importante reflexão sobre nossos próprios tempos. Nesta entrevista conversamos com o autor do livro, Otávio Definski.

Otávio mora em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. É formado em Educação Física e escreve amadoramente há três anos. Seus gêneros preferidos são fantasia e distopia. Influenciado por Tolkien no começo, seguiu a trilha de grandes escritores e escritoras, como Lewis, Martin, Rowling, Sapkowski e Orwell.

Como surgiu a ideia de uma distopia?

A partir das leituras distópicas escritas décadas atrás, em que acertaram em cheio como o mundo seria no futuro, além de representar a sociedade da época escrita e antes.

Junto disso, existe a constante indignação com a vida de hoje e em como ainda não conseguimos olhar para a nossa história, refletir sobre erros e procurar encontrar as soluções que nos coloquem em um caminho melhor e justo no futuro. Os governos mundiais disfarçam que buscam uma sociedade pacífica e unida enquanto o mundo capitalista visa as cifras ao invés das pessoas, aumentando a desigualdade social, tirando das pessoas o mínimo para viver: saúde, educação e alimentação.

Cada distopia é uma avalanche de mentiras, jogos de poder, violência contra certos grupos da sociedade, uso excessivo da força e pouca importância para a vida humana. Muito parecido com qualquer período histórico do passado até os dias atuais.

Foi o incômodo com as leituras e o repugno à atualidade que me levaram ao processo de escrita.

Qual livro de escrita distópica mais te marcou e te influenciou a escrever uma distopia?

1984, de George Orwell. Ele trata de um governo dissimulado, mentiroso e opressor.

Lançavam uma informação em um dia e, se precisasse, apagavam, afirmavam que nunca haviam dito aquilo e quem discordasse jamais teria provas contrárias, porque todas eram retiradas do sistema através de um esquema organizado, complexo e profundo.

Criaram os dois minutos de ódio, no qual as pessoas poderiam xingar e gritar para a foto do inimigo estampada no telão. Ali, as classes trabalhadoras, sugadas e manipuladas até o limite de suas forças, descarregavam sua raiva e seu ódio que eles próprios não tinham a certeza da origem.

Refletir sobre a vida era um crime.

A cultura não existe.

As pessoas são vigiadas em casa, no trabalho e na rua.

Muito similar aos tempos atuais. 1984 é muito mais atual do que Terra Vazia, mesmo tendo sido escrito em 1949.

Terra Vazia, seu livro de estreia, tem a ver com a realidade do Brasil hoje? Ou é uma crítica a um comportamento contemporâneo do excesso de uso da tecnologia?

O livro tem relação com qualquer governo que tente dominar a população por meio de mentiras que negam a sua própria história; que usam de violência para dominar pelo medo; que procuram deixar as pessoas em estado de inércia com o consumismo excessivo, programas banais e uso massivo de aparelhos eletrônicos; e que dividam os seres humanos em caixas, como se cada um já nascesse predestinado a realizar tal função por toda a sua vida.

Atualmente o Brasil enfrenta esse tipo de governo.

A tecnologia é uma arma na mão das pessoas erradas. Pode ser usada para manipulação, através de notícias falsas e encorajamento de atitudes bélicas; para buscarmos a vida que não temos, por meio de propagandas mostrando que um “corpo perfeito”, um “casal perfeito” e uma “família perfeita” trazem a felicidade, a alegria de uma vida plena. Uma vida que não deve ser apenas curtida, mas sim mostrada para toda a rede e louvada como a busca ideal. Ou seja, é um sistema excelente no que diz respeito à alienação da grande massa, maximizando a ansiedade, a depressão, o desinteresse por assuntos agregadores e a infelicidade por não conseguir encontrar o caminho para os “sonhos”.

Seu livro tem uma protagonista jovem, mas a temática é relevante para pessoas de qualquer idade. Na sua opinião, é um livro juvenil?

É um livro juvenil. A situação atual pode caminhar para um rumo melhor no futuro com as novas gerações e suas quebras constantes de paradigmas e tentativas de sair do status quo.

Não que isso retire das pessoas, de qualquer idade, a possibilidade de refletir, mudar e procurar fazer diferente. Mas, quanto mais tempo sofremos sendo expostos a repetições de ideias e mensagens subliminares, maior será o trabalho para se desvencilhar dessas amarras.

O que você sugere para quem deseja escrever livros de ficção científica?

Ler e assistir as grandes obras do gênero permite saber o que já foi criado, sem risco de produzir algo semelhante ou igual.

Tentar pensar sempre um pouco ou muito a frente do tempo cronológico que estamos hoje em dia, analisando como as tecnologias podem se desenvolver para padrões ainda maiores e em como isso afetaria a vida do mundo.

Que elementos não podem faltar em uma distopia?

Não pode faltar sistemas que oprimem a população, onde um controle massivo acorrenta e diminui qualquer ser humano a uma esfera impotente e ignorante.

Não pode faltar governo que visa o bem material antes de qualquer bem emocional. Vidas humanas não importam, desde que atinjam os objetivos propostos, sejam eles quais forem.

As classes precisam ser bem divididas, onde cada uma saiba o seu canto e não tente se misturar com as demais, principalmente se for uma acima.

A história verdadeira deve ser esquecida e dar lugar para a história criada. Quem oprime deve parecer o salvador e quem reclama deve parecer o inimigo.

Basicamente, basta olhar para o cenário mundial atual, e principalmente para o Brasil, para criar a obra distópica perfeita.


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