Manjedoura
 



Contos

Manjedoura

Filipe Smidt Nunes


Quando os anjos se afastaram, voltando para o céu, os pastores combinaram entre si: “Vamos a Belém, ver esse acontecimento que o Senhor nos revelou”. Foram então, às pressas e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. (Lucas 2, 15-16)
O brilho que pouco antes trespassava o céu era o alerta procurado há tanto tempo. João prestava devota espera e incansável preparo para a volta do Cristo. Buscou no sagrado livro as escrituras sobre a Estrela do Oriente, interpretando se dessa vez não seria no Ocidente o nascimento do Salvador. Indicou com o dedo o sentido da estrela e seus pés apontaram a mesma direção.

Na Bíblia, um anjo se apresentou a alguns pastores e seria simbólico se mostrar novamente a um pastor, mesmo que o sentido da palavra tenha se adaptado. João era um líder religioso e não um homem do campo. Sua cabeça ardia em reflexões enquanto seus pés se apressavam naquela noite de dezembro.

Depois da caminhada, encontrou luzes acesas em uma casa e espiou. A família se reunia em volta da mesa enquanto o patriarca fatiava o peru assado e distribuía pedaços entre os pratos que se erguiam. No canto da sala de jantar, uma árvore de Natal, presentes e desenhos de um velhinho barbudo sorridente vestido de vermelho. A revirada dos olhos aprumou o retorno ao caminho.

Alguns quarteirões adiante, ouviu outros sinais de presença humana. Vozes e música altas se misturavam com talheres batendo com avidez. Espreitou-se em um muro e testemunhou uma grande festa. Pedaços de porco, ovelha, gado e galinhas se reviravam entre as chamas, enquanto os homens confraternizavam levantando e abaixando copos com diferentes tipos de bebida. Resmungou algumas palavras e seguiu em frente.

Encontrou um restaurante aberto oferecendo variedade sem fim de frutos do mar. Garçons e cozinheiros corriam para atender as mesas com clientes impacientes com o serviço especial de Natal.

Ajoelhou-se e pediu perdão pela incompreensão da mensagem do Salvador. Mantendo o norte da perseguição à estrela, decidiu desviar do caminho mais habitado. Em sua frente, uma pequena estrada de chão batido apontando em linha reta à exata direção em que a estrela desapareceu. Para o campo. Onde o pastor ansiava encontrar o recém-nascido posto em uma manjedoura, recipiente usado para alimentar o gado.

Percebeu-se colhendo flores pelo caminho. Não tendo mirra, incenso e ouro, pensou em entregá-las ao Salvador, como fizeram os reis magos ao presentearem o Filho de Deus. Os pés doíam e as roupas manchavam com o suor próprio de uma longa caminhada no verão de dezembro. Seus passos eram os únicos sons da estrada.

Deixou para trás grandes extensões de terras com pequenas variedades de plantas. Enormes galpões industriais escondiam-se no meio do nada. Naquele momento, tudo era silêncio e, pela primeira vez, dúvida.

A cada tanto, ajoelhava-se e rezava. Seus joelhos ralados e empoeirados com a terra da estrada pediam misericórdia, mas o pastor não tinha qualquer disposição de dar até que encontrasse a acanhada estrebaria onde a busca teria fim e o novo mundo, início.

Demorou muito para encontrar uma propriedade que fosse pequena e, dentro dela, uma apertada construção. Ciente da severa ofensa em adentrar terras particulares sem permissão, rezou para que a grávida não tivesse sido recebida a tiros.

Abaixou-se para ver se havia algum sinal de presença, mas a fresta era pequena demais para se olhar. Pôs o ouvido rente à porta, para escutar o choro do recém-nascido, imaginando os pais esperando a visita daqueles que perceberam os sinais da Boa Notícia. Tomado pela coragem daqueles que verdadeiramente creem, decidiu abrir a porta e encarar o que viesse pela frente.

No chão, sangue, panos sujos e palha. Logo atrás, uma manjedoura. Vazia. Sem recém-nascido. E sem um único animal.



***

Filipe Smidt Nunes nasceu em maio de 1990 na cidade de Porto Alegre. Graduou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em 2018, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores na Metamorfose. Apaixonado por animais, por ler e contar histórias, acredita na empatia e na arte como formas de transformar a realidade. Escreve para refletir e questionar. Histórias não contadas nos almoços de domingo é a sua estreia na literatura. Participou do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Uma pequena história de Natal, com uma reflexão profunda e necessária nos nossos tempos. Parabéns, Felipe, pelas grandes mensagens que passas em pequenos formatos, como o conto.

Silvia Rosa Penna, Novo Hamburgo 24/12/2019 - 16:44

Uma reflexão profunda que somente um escritor empático com todos os seres que habitam esse nosso mundo poderia escrever. Um iceberg com duas pontas. Uma, não que seja a primeira, das tradições consumistas de trocas de presentes nas quais o mais pobre triste só observa; e a segunda, da matança de animais, do sangue inocente sendo derramado pra alimentar a fome da maioria que ainda permanece presa a hábitos carnistas.

Sinara Foss, SANTO ANTONIO DA PATRULHA 18/12/2019 - 17:08

Importante reflexão. O consumo, a cultura, os rituais conseguem mantem o verdadeiro e genuíno sentido do Natal: “É noite em Belém, e em certo lugar nasce alguém, o mundo não sabe ou mesmo que saiba esquece ..... aquele que foi prometido...” te amo filho

Marcos Nunes, Porto Alegre /RS 18/12/2019 - 13:11

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