Contos

Espera

Claudia Fontoura Xavier


Venta pouco na praia hoje. O mar avança e recua calmamente no seu ritmo de marés. Rosimalva está sentada na cadeira embaixo do guarda sol. Semicerra os olhos e observa o movimento e o barulho das pessoas. Os gritinhos das crianças, as risadas, as conversas ao redor. Gosta de ver o colorido das roupas de banho. E se sobressaindo de tudo isso o som e a presença do imenso mar. Mas se dá conta que um pensamento na sua cabeça se sobrepõe a tudo isso. A demora do seu marido. Faz um tempo que foi comprar uma caipirinha. Olha na direção do bar para ver se ele está vindo. Nada. Eles curtiam esse momento de semiembriagues, da fala solta, das bobagens que diziam e a sensação do corpo relaxando aos poucos. Mesmo sabendo que essas demoras não são novidade, Rosimalva se deixa enganar que talvez hoje, hoje seja diferente.

No lado direito da praia ela vê fragatas voando numa espiral ascendente. Todas parecem saber o que fazer, numa sincronia e organização perfeitas. Muito diferente dela que nunca sabe bem o que fazer, a hora melhor de agir e a palavra certa no tempo certo. Poderia se transformar numa fragata e ver lá do alto onde estava seu marido, o que ficava fazendo nas suas ausências. E poderia ver também onde estava sua vontade própria, sua leveza, seu riso, suas ideias, seu sentimento. Pensa em entrar no mar, mesmo sabendo do medo que as ondas lhe causam. Dar uma caminhada na beira da praia sentindo o respirar aquoso do mar e andar até quando tivesse vontade no ritmo que quisesse. Mas não se levanta da cadeira. A espera aprisiona. E se ele voltasse justo agora? Certamente ficaria preocupado. Sairia atrás dela?

O sol queima as suas pernas. Levanta-se e passa mais uma camada de protetor solar. Olha ao redor e consulta o celular para ver a hora e se tem alguma mensagem do marido. Nada. Senta. Fecha os olhos e tem vontade de chorar. Segura. Olha outra vez na direção do bar e vê o marido vindo com a caipirinha na mão. O passo meio inseguro. Ele chega com um sorriso e senta na cadeira ao lado lhe estendendo o copo. Ela toma um grande gole sentindo a cachaça, o limão, o açúcar e o gelo tomarem conta da sua boca que não fala nada. Olha o mar imenso, as fragatas, os biquínis coloridos. Ouve o marido dizendo qualquer coisa que não entende. Bebe mais um longo gole e espera que o álcool faça o seu efeito.

***

Claudia Fontoura Xavier nasceu em 16/04/65. Participou das Oficinas de Criação Literária do Sintrajufe, ministradas por Caio Riter, e é co-autora das antologias promovidas pela oficina (Matéria de Invenção 2, Palavras e Silêncios, A Semente e o Verbo e Entre Palavras). Ficou em primeiro lugar no Terceiro Concurso Literário Mário Quintana em 2007 e no Sétimo Concurso Literário Mário Quintana em 2011.

 

 

 

Comentários:

Dá pra se sentir nessa praia com a descrição. Muito bom!
:)

Caue, Porto Alegre 23/05/2019 - 18:01

Apesar de ser suspeita, não posso deixar de aplaudir. Parabéns.

Marta Helena Fontoura Xavier, Porto Alegre 24/04/2019 - 14:24

Poesia pura! Texto claro. Causou ainda mais admiração neste velho amigo.

Carlos Zaslavsky, POA 08/04/2019 - 11:10

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