Contos

O Intruso

Rafael Priviero D`Abruzzo


Afonso fechou a porta do apartamento e iniciou seu já habitual roteiro de passar as duas trancas, retirar os sapatos no capacho, afrouxar o cinto e abrir os dois primeiros botões da camisa. Ele tinha consciência de que mesmo os movimentos das mãos eram sempre idênticos, mas a fase de sua vida em que se preocupara com isso havia passado.

Ao sair do corredor da entrada, onde deixara os sapatos alinhados ao batente da porta, chegou até a mesa da pequena sala conjugada, na qual ficava o computador. Desde que Beth pedira o divórcio há três dias, avisando que ia morar sozinha, Afonso tinha todos os cômodos à sua disposição para mantê-los como bem entendesse.

O casamento durou tanto quanto a paciência dela com as manias dele permitiu. Ele resolveu deixar de tomar seus remédios quando ela informou que faria as malas para sair. Sem ninguém o atormentando, poderia fazer as coisas como bem quisesse.

Naquela noite, porém, nem tudo estava como queria. Havia uma mácula em sua organização impecável: a caixa de seu óculos estava desalinhada com o restante da mesa. Era grotesco, um ataque ao bom-senso. Aquilo causou dupla repulsa em Afonso, pois se a caixa estava fora do lugar, alguém mexera nela. E ele morava sozinho.

Sentindo um suor frio brotar em sua testa, dirigiu-se à cozinha, muniu-se de uma faca grande de churrasco e colocou-se a vasculhar os cômodos. Um a um, passou acendendo as luzes com a faca empunhada, esperando a qualquer momento ser surpreendido.

O último cômodo era seu quarto, que estava com a porta fechada, como sempre. Acendeu as luzes e vasculhou todos os cantos, sob a cama, dentro do armário vazio em que Beth guardava suas coisas e também atrás da porta. Não havia ninguém.

Após fechar a porta do quarto, voltou para a sala e examinou mais uma vez a caixa de óculos sobre a mesa. Comparou sob diversos ângulos com a ideia perfeita de harmonia que havia em sua mente e sossegou. Havia sido um erro. A caixa estava do mesmo jeito que deveria estar, perfeitamente alinhada com o canto esquerdo superior do móvel.

Ao acender a luz do banheiro para tomar um banho, viu que o piso do boxe estava levemente torto no chão, do jeito que a esposa deixava. Ele jurava que ela fazia aquilo apenas para irritá-lo. Pensou que deveria ter ficado daquele jeito, sem ter percebido, todos aqueles dias.

Abaixou-se para arrumar aquela aberração simétrica e, ao olhar para o espelho do banheiro, viu a si mesmo no reflexo, ensanguentado, segurando a faca de churrasco. Com o susto, deu alguns passos para trás e caiu sobre o corpo de Beth que jazia inerte no chão, com as malas da mudança de três dias atrás prontas.

***

Rafael Priviero D`Abruzzo é escritor, advogado e leitor voraz de diversos estilos literários. Com apenas um conto publicado no Wattpad até o momento e autor de tantas outras histórias engavetadas, está terminando a edição de seu primeiro romance.

 

 

 

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