O menino e o tempo
 



Contos

O menino e o tempo

Marcio Furrier


Talvez nenhuma imagem seja mais permanente em mim que a daquele velho…

Nove ou dez anos de idade, eu matava o tempo observando as pessoas por trás das grades de ferro da garagem da casa de minha avó. Área apertada, destinada ao fusquinha da minha tia, sempre vazia durante o dia, recoberta de cacos vermelhos de azulejo caprichosamente quebrados pelo meu avô, um a um, e juntados de maneira aleatória para compor um mosaico frio. Sobre o nicho do registro de água, eu, insuspeito do que me reservara a vida naquele dia.

Na tranquilidade da tarde, aquele era o meu espaço. Após a aula e o almoço, quando me cansava do ócio, timidamente olhava por entre o portão, à espreita das pessoas que desciam a longa rua de terra em direção ao outro lado do rio, ainda não canalizado. Olhava não, analisava, ria e me estranhava com a gente, sem dar-lhes a mesma chance de fazerem isso comigo. Aquele era meu cosmos, até onde minha experiência de menino podia alcançar.

Mas vamos ao fato. Não sei o quanto a imagem foi real e o quanto deixei que fosse retocada em meu inconsciente... Era uma tarde já com sol baixo, sinto o calor na face como se fosse agora. Meu espetáculo de periferia arrastava-se sem novidades, pessoas indo e vindo, algumas virando o rosto para o portão e me surpreendendo, ao que eu rapidamente me contraía em meu nicho e lhes negava o rosto. Tímido, indevassável como continuaria sendo por muito tempo. Talvez a moça da Avon ou do Yakult já tivessem passado, e eu já respondido que minha mãe não estava, nem estava a empregada (que nunca tivemos).

Lembro-me que meus olhos esquadrinharam aquela imagem depois da minha consciência. Súbito me notei congelado, sem atinar a razão. Dobrando a esquina de baixo, passando pela casa da Dona Sofia e atravessando a rua em minha direção, um velho, setenta anos, no mínimo. Terninho preto puído, bem justo de outros tempos de vacas ainda mais magras, camisa pretensamente branca de gola alta, ornada por uma gravatinha borboleta preta, sapatos maculados pela terra da rua e chapéu daqueles que não se usavam mais. Carregava uns dez porta-retratos de moldura espartana, mostrando uma foto preto-e-branco do Francisco Cuoco, naquela época já um ator veterano da Globo. Um movimento lento e vacilante. Andava como se pedisse licença pelo chão de terra batida. Confesso que aquela imagem caiu em mim como uma bomba. Pelo inusitado, pela força, pelo rompante da revelação. Improvável, mesmo aos olhos de um menino de 10 anos, acreditar que ele iria conseguir vender um porta-retrato daquele em uma rua pobre dos confins de São Paulo. Que razão louca ele teria para achar que tal iniciativa iria lhe prover sustento? Eu não tinha ainda lido Quixote, mas ali certamente reconheceria um.

A força dele eram seus olhos. Dignos, dignos, dignos. Os olhos castanhos se apertavam contra o sol e contra a face marcada, espreitando alguma alma para oferecer seu produto. Olhos sofridos; poder-se-ia dizer que todo o sofrimento do mundo estava lá, incontido, óbvio. Parecia que a cada passo se penitenciava de seu destino, mas não se abalava com as recusas, ou porque também desconfiava de seu absurdo, ou talvez porque só quisesse continuar caminhando pelas ruas.

Eu continuava congelado. E sim, ele tinha me visto e vinha agora me oferecer aquilo. Acho que nunca fui tomado de tanta compaixão. Ao mesmo tempo penava o coração, dava-me vontade de abrir o cadeado para abraçar aquela figura frágil. Queria talvez dizer a ele que tudo ia melhorar, talvez fazer aqueles olhos rirem uma vez que fosse. Tive também ímpetos de correr na carteira da minha mãe e pegar o que fosse necessário para comprar um porta-retrato do Francisco Cuoco. Tudo isso num segundo. Ele me olhou de maneira tímida, as mãos surradas pelo tempo me fizeram um leve movimento de oferta. Eu fitava aquele homem mas não o compreendia; estava assustado, triste e imobilizado. O máximo que consegui, juntando minhas forças, como que ele ainda me olhasse, foi um balançar negativo de cabeça. Então aqueles olhos se voltaram à rua, e nos despedimos para sempre. Sabia que não voltaria a vê-lo, que não teria mais chance de comprar seu produto, nem lhe poderia dar alento. Vendo-o já pelas costas, o magro terninho preto se afastando e ficando menor, me despedi dele em silêncio.

Só hoje faço justiça àquele velhinho ambulante: naquele exato momento deixei de ser menino. Pela primeira vez tinha entendido o poder do tempo. Tempo irreversível. A força daquela imagem me mostrou pela primeira vez a existência da velhice sem retoques, sem cortes. E que a vida não era necessariamente justa, nem nunca nos prometera isso.

Essa imagem ficou comigo e vivia me pedindo para sair, para ser compartilhada. Se não comprei o retrato nem lhe dei apoio, presto-lhe agora a mais sincera e pura das minhas homenagens. Imagino que outros profetas, velhinhos disfarçados de homem-sanduíche, vendedores de loteria, engraxates, amoladores de faca, devem vagar por São Paulo, provocando sensações parecidas em novas gerações de meninos atrás de grades.


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