Contos

Aventura

Rodrigo Scop


Escutei com atenção os barulhos do salto alto de minha mãe e do sapato de meu pai contra o assoalho de madeira. Os sons secos e ritmados deixaram o ambiente e sumiram pelo corredor, na direção dos quartos. Olhei para trás, por cima do encosto da cadeira de jantar, para me certificar de que eles não estavam mais ali. De um salto, me coloquei de pé, contornei o sofá de couro escuro, virado para uma grande televisão, e me joguei no tapete alaranjado e felpudo que preenchia o espaço onde antes houvera uma mesa de centro de vidro e um tapete negro. Raios de sol entravam por uma janela lateral e faziam o tecido laranja do tapete reluzir.

Eu me voltei para o sol e sorri quando senti seu calor em meu rosto. Passei os dedos pelo tapete com atenção, aproveitando a maciez do toque em minhas mãos. Quando olhei por sobre o ombro, notei meu irmão mais novo ali, encarando-me com expectativa. Os olhos cor de mel brilhavam contra o sol, e seu sorriso desfalcado indicava o que ele desejava. Eu sorri em resposta e assenti com convicção, como se me preparasse para uma missão especial.

– Se prepara, Gui! O tapete mágico vai partir! – anunciei. – Todos a bordo? Vamos lá!

Agarrei a borda do tapete e a puxei, fazendo o tapete decolar. A risada de meu irmão preencheu meus ouvidos.

– Se segura que a gente ainda tá subindo. Pronto! Agora podemos colocar os braços pra fora.

Abri meus braços e senti o vento contra meu rosto. Atrás de mim, meu irmão imitava meus movimentos.

– Onde a gente tá? – perguntei.

– Egito! – ele bradou de súbito. – Pirâmides! – complementou ele, seu dedo surgindo sobre meu ombro direito.

Ao olhar para o lado, enxerguei a imensidão amarela de um deserto. Ao longe, três enormes pirâmides. Pequenas abaixo de nós, trilhas de camelos carregavam homens e mulheres cujas cabeças eram cobertas por pashminas multicoloridas. Meu irmão os apontou e ganiu alegremente:

– Camelo! Camelo!

– Isso mesmo, Gui! Que tal agora a gente ver elefantes e girafas?

– Sim! – respondeu meu irmão, jogando as mãos para o alto.

– O que você está fazendo? – trovejou a voz de meu pai, antes que eu pudesse anunciar nossa chegada às savanas africanas.

Ele contornou o sofá, seus sapatos ecoando contra o chão, e se postou à minha frente. Eu abri as mãos e deixei a borda do tapete escapar de meus dedos. Olhei para ele com a expressão vazia de quem não compreendia seu olhar aflito.

– Eu tava levando o Gui pra viajar – respondi.

Meu pai se agachou à minha frente, e seus olhos marejaram.

– Eu sei que você sente falta dele, Gabi. – A voz saiu embargada. – Eu também sinto. Muita. Assim como sua mãe. Mas agora ele está na companhia dos anjos.

Eu senti o choro socar minha garganta, implorando para ser libertado. Senti meus olhos molharem e meu coração palpitar. Senti tudo romper meu controle quando meu pai me puxou para um abraço. Envolvi meus ainda curtos braços ao redor do pescoço dele e soltei meu choro e meus soluços.

Quando ele me afastou, limpou minhas lágrimas com seus enormes dedões e ajeitou a gravata preta e a gola da camisa branca que eu usava. Com o dorso da mão, limpou seus próprios olhos. Então segurou minha mão gentilmente e me guiou na direção do corredor.

Eu me virei e encarei o tapete laranja, que substituía a mesa de vidro e um tapete negro. Lembrei-me da última vez que vi o sorriso deslumbrante do meu pequeno irmão. Lembrei-me de ele correndo alegre ao redor da mesa. Lembrei-me de ele tropeçando no tapete e caindo. Lembrei-me do vidro se despedaçando e dos gritos.

***

Rodrigo Scop é leitor apaixonado de fantasia medieval e ficção histórica. Ex-bancário e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, preferiu não seguir carreira em quaisquer das áreas, optando por perseguir a paixão por criar e desenvolver histórias.

 

 

 

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