A Redoma de Vidro e o lugar da dúvida
 



A Redoma de Vidro e o lugar da dúvida

por Olivia Takeuchi Stefanovits

Esther Greenwood é a personagem central do único romance publicado por Sylvia Plath, uma jovem estudante intelectual que passa boa parte do romance em dúvida entre ser o que ela quer ser ou ser o que é esperado dela.

O livro foi inicialmente publicado sob a autoria de um pseudônimo, mas popularizou-se como um livro confessional de Sylvia Plath, sendo Esther uma autoficção de Plath.

Pairam expectativas sociais sobre a vida de uma mulher jovem, artística e intelectual que, durante toda a trama, não bate o martelo entre estudar ou casar, ora rejeitando um e afirmando o outro como seu lugar, ora optando pelo outro.

A Redoma de Vidro explicita a complexidade das relações humanas. Percebemos uma narradora que sente inveja e afeto por suas amigas, que tem raiva mas gosta do namorado, que tem uma incrível pulsão de vida na literatura, mas só nela.

Assim como o desfecho do livro, Esther é ambígua. E o que nos torna seres humanos tanto quanto a possibilidade de contradizermo-nos? O que restaria de humanidade sem a hipocrisia, o julgamento, a inveja e toda a mesquinhez?

Plath, que anteriormente se revelava uma exímia poetisa, pela primeira vez sentiu o desejo de escrever um romance, talvez porque dúvidas tão majestosas como “qual o meu vir-a-ser?” precisassem de mais ruminação e discorrimento do que é possível na poesia.

Esther parece narrar ao mesmo tempo em que busca a si mesma numa decisão definitiva sobre sua imagem e seu lugar no mundo enquanto se descobre como mulher. O tornar-se mulher de Esther foi cheio de dores, algumas naturais, outras violentas e misóginas, como é comum acontecer, a certo ponto, na vida de qualquer mulher.

Quantas violências nos atravessam enquanto se quer apenas o direito de ser incompleta, inacabada, imperfeita? E qual a relação doentia entre violência e loucura que protege a primeira e expõe a segunda como uma redoma de vidro? Hoje chamada de eletroconvulsoterapia, os eletrochoques mais se assemelham a um castigo e tortura pelo enlouquecimento.

Poucos passam pela vida sem alguma intimidade com a experiência da loucura, mas os que sempre são castigados por ela têm raça, classe e gêneros pré-determinados. O lugar da vergonha e da exposição é nosso ao ler A Redoma de Vidro e notar que, mais de seis décadas depois, não muito mudou. Hoje sob novo nome, de eletrochoque para eletroconvulsoterapia, o medo da loucura ainda é tão grande que a tortura segue se reproduzindo.

Pelo direito de ser/estar em dúvida, em suspenso, em revisão, Plath nos apresenta A Redoma de Vidro. Que a vergonha pelo diferente não nos oprima, não nos cale, não nos mate.


Olívia Stefanovits é escritora e criadora de conteúdo pelo Instagram @olivia.stefanovits , autora do livro O Último Tiro, um relato sobre sua trajetória em clínicas de recuperação por problemas passados com drogas e borderline. Sobreviveu para contar, e conta.

 

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