Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica da Pixar
 



Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica da Pixar

por Isabel Pfahl

Ao menos uma vez na vida todo mundo já desejou ser capaz de fazer magia. Em Onward (Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, 2020), da Pixar Animation Studios, esse desejo é o último de Wilden Lightfoot. A premissa do filme é simples, dois irmãos, Ian e Barley, recebem a chance de passar um único dia com o pai que perderam. Wilden deixa para os filhos um cajado, uma pedra mágica e um feitiço para que possam passar vinte e quatro horas juntos. Mas por óbvio, tudo dá errado e os irmãos precisam achar outra pedra mágica.

É curioso perceber que o filme ensina, discretamente, como se constrói uma boa narrativa, seguindo uma estrutura de RPG com mapas, feitiços, leis mágicas, obstáculos, perigos e aliados. Mas essa escolha estética é também estrutural. O RPG funciona como metáfora do próprio ato de narrar: o herói sai de um ponto de fragilidade, enfrenta desafios progressivos e, a cada etapa superada ganha consciência interna. Ian, inseguro e tímido, precisa aprender a confiar. Barley, impulsivo, precisa provar que sua aparente irresponsabilidade esconde coragem e afeto. Cada obstáculo externo corresponde a um conflito interno dos personagens.

É nesse ponto que o filme dialoga com o modelo da jornada do herói, sistematizado por Joseph Campbell. Ian parte de um estado de fragilidade e incerteza. Ele não acredita em si mesmo, não se vê como herói. Barley assume, em muitos momentos, um duplo papel, mentor e companheiro de jornada. Ele é quem conhece as regras do mundo mágico. Mas, o filme brinca com essa estrutura tradicional. O mentor é imperfeito e emocional, como não deveria ser. A orientação não vem de sabedoria ou ensinamentos milenares, vem da intuição do próprio Barley.

O filme reafirma, assim, algo que atravessa mitos antigos e narrativas contemporâneas: toda jornada é, antes de tudo, interior. O herói atravessa florestas, pontes e cavernas porque precisa atravessar inseguranças, expectativas e lutos. A narrativa faz acreditar que o objetivo é o reencontro dos filhos com o pai. Mas, ao se aproximar do clímax, desloca o foco. A resolução não entrega exatamente o que esperado. O desejo inicial era literal, a necessidade profunda era emocional.

Contar uma história é organizar essa travessia. Onward faz isso com seriedade e sem perder a leveza da animação. Não sabemos exatamente o porquê continuamos desejando magia. Talvez nem seja para alterar o mundo ao nosso redor, talvez seja apenas para transformar a maneira como atravessamos nossas próprias jornadas.


Isabel Pfahl é estudante de Letras Português pela Universidade Estadual de Londrina (Uel) e pesquisadora na área de literatura e estudo da narrativa. Atua na tradução, revisão e adaptação de livros para o português brasileiro e tem um perfil no Wattpad onde posta amostras de suas traduções (Wattpad profile). É advogada de formação, criminalista e especialista em direito penal e processo penal com habilitação para docência. Mas como é apaixonada por histórias, se dependesse dela, viveria numa biblioteca lendo e contando histórias.

 

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