O Agente Secreto pode ser visto como uma outra leitura do mesmo tema: a ditadura. Quem viu "Ainda estou aqui" assistiu a um quase documentário, quem vê O Agente secreto vê a ficção. E só a ficção é capaz de mostrar que a dureza da realidade está, tal como o diabo, nos detalhes. É correr risco de vida ao receber um desenho do filho. É não poder confiar em (quase) ninguém.
Mas O Agente Secreto não é só sobre a ditadura militar. Ele é sobre todas as ditaduras. Sobre os pequenos grandes poderes dados a pessoas sem nada na cabeça e uma arma na mão. É sobre a ditadura do dinheiro. Manda prender, manda soltar, manda matar. O dinheiro corrompe, o poder corrompe.
Se em Bacurau são os gringos que massacram, em O Agente Secreto são brasileiros com orgulho de seu sangue estrangeiro. Seguindo a ideia "canta a tua aldeia e serás universal", Kleber Mendonça Filho traz a história para a sua cidade natal. Vemos na tela Recife dos anos 70 com direito a Carnaval, lendas, pontes, cinema...E ao fazer isso o próprio filme é um contraponto aos antagonistas do personagem de Wagner Moura que defendem que o que importa do Brasil é o eixo Rio-São Paulo.
Para contar esta história, o roteirista e diretor usa muitas referências atuais e não explícitas. Cabe ao espectador preencher as lacunas. Por que mesmo está no filme a cena da patroa acusada de "deixar morrer" o filho da empregada? Quem lembra para você a dupla de padrasto e enteado presentes no filme? Afinal, por que mesmo que o personagem de Wagner Moura está sendo perseguido? A sua pesquisa é algo importante em 2025? Quem ficou rico com isso?
O filme não é sobre os anos 70. O filme não é sobre a ditadura militar. O filme é sobre o quanto isso está impregnado no brasileiro em 2025. "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça".