Em algum lugar entre a prosa poética e a bravura das quadras. Aqui estará você ao caminhar livro adentro de "Mirando o gol, acertando as estrelas". Da bildung em aberto. Do coral de vidas. Da treliça de desacertos. Das gratas surpresas. Das goleadas a favor e contra. O joelho, a mão, a mente e a alma. Dos nomes em letra, das vivências como letra de música. Uma heroína, uma memória. Quebrar-se e reconstruir-se como num Kintsugi. A figura e a forma, o coro de existências e a protagonista que cresce ao longo do livro. Afinal, quem poderia escrever uma obra tão bela e tão profunda? Carol Canabarro, que você pode acompanhar no site www.carolcanabarro.com.br.
A obra é indissociável da autora. Se formos no site citado veremos diversos contos muito bem escritos, com temas diversos. Encontraremos o Instagram no link e poderemos seguir e ter contato direto com ela. Sua vida profissional como fala no site passou por "atleta, garçonete, especuladora financeira e professora", nas suas palavras. No mesmo sítio encontramos a fênix que habita nela mesma: "Morreu duas vezes, ressuscitou em ambas". Poucos podem ter esses momentos de túnel em aberto, estilo "Ascensão dos Abençoados" de Hyeronimous Bosch, de perceber o que é viver e agarrar com unhas e dentes a oportunidade que só vivendo temos. Compartilho dessa "fênixtude", ainda que só uma vez, ou três dependendo do ponto de vista; se a mim levou a descobrir novas atividades profissionais terapêuticas e redescobrir a poesia, a ela descortinou muitos contos e esse lindo livro. De toda maneira, no protagonismo de L. existe essa bossa e essa melodia. Ouvimos pelo livro.
A vida imita a arte ou a arte imita a vida?
Vamos aos fatos do livro.
O que está em jogo para as meninas que crescem ao longo da Parte I? Percebemos toda a importância que o esporte desempenha na vida pessoal, e as esperanças e apostas que cada uma tem. Na interação de C., D., L. e outras, percebemos um quantum do universo que é a competição desportiva. Uma hora estamos na quadra com a figura imperiosa de Mauro, uma hora estamos nas casas e estamos com Tia Zeni, uma hora estamos com cada uma delas, e uma hora estamos em seus corações e mentes. Somos lançados no mundão para perceber uma miríade emotiva e desbravadora, e como toda proposta de Bildung, de romance de formação, percebemos o crescer de cada uma.
A Parte II. Tal como o gato de Erwin Schrödinger, grande experimento de emaranhamento da física/mecânica quântica, o handebol vive e morre aqui. Vem e vai como um golfinho dentro do oceano de variáveis que insistem em desviar cada uma delas dessa vida. O que era o gol que cada uma mirava? Onde ele estava quando apareceu o Mundo Novo de Jonas? Crianças nascem, crianças interiores morrem e renascem. Onde estava todo esse tempo aquela sincronicidade de quadras? Perdida.
Rediviva na Parte III. Outras pessoas, questões ainda por se resolver vindo à tona. É que o jogo não é mais no esporte clube e nem mais na seleção, agora é de acertar estrelas. O mundo gira, as protagonistas se reencontram e nós somos levados na sinfonia do que é o viver. Algumas coisas são dramáticas e incontornáveis, algumas se rearranjam, e outras são pura comédia. Tudo isso embalado em ritmo, em uma escrita que cresce a cada página, com uma estética que vai mesclando pensamento, fala, ato, marcação da autora e demais. Você nem sente, sabia? Vai lendo, vai lendo, e quando acaba, você se pergunta. Aliás, eu pergunto: Por nós, Carol, continua a escrever?
João Catraio Aguiar é Psicanalista e Hipnoterapeuta. Sociólogo com Mestrado em Relações Internacionais e Doutorado em Ciência Política. Autor de Paixão e Raiva são Festivas, livro de poesias, escrito enquanto era aluno do curso da Metamorfose; também escreveu alguns contos e cinco livros acadêmicos.