"A nevasca não dura para sempre; só parece que vai": escritores famosos falam sobre a rejeição
 



"A nevasca não dura para sempre; só parece que vai": escritores famosos falam sobre a rejeição

por Caroline Rodrigues (trad.)

É um novo ano. Talvez você tenha feito algumas resoluções de escrita (ou de envio de originais)? Se o seu objetivo é 100 rejeições este ano, ou se você já tem contabilizado rejeições nos últimos sessenta anos, ou se você está simplesmente tentando terminar aquele romance, aquela história ou aquele poema para enviar ao seu agente ou editor, talvez você precise de um pouco de incentivo nesta altura do campeonato.

Primeiro, não esqueça: todos os grandes escritores (e muitos de seus livros amados agora) foram rejeitados, alguns deles muitas, muitas vezes. Mas essas palavras animadoras não precisam vir de mim. Deixo que alguns desses escritores o façam, que, afinal, sabem melhor:

***

Talvez por causa do meu longo histórico como dançarina, atriz e escritora, a rejeição é algo com o qual eu estou familiarizada demais... para cada realização houve vinte rejeições. Uma companhia de dança achava que meu estilo era incompatível com o deles. Um diretor de elenco achou que faltava algo em mim. Um editor considerava minha escrita extravagante demais, ou simples demais, ou abstrata demais ou concreta demais. Eu podia continuar por horas. Mas, no fim, só uma atitude me capacitou para continuar em frente. Essa atitude dizia: "Rejeição pode simplesmente significar redirecionamento".
Maya Angelou, para Tavis Smiley, na TIME, 2015

Quando eu tinha quinze anos eu comecei a enviar contos para revistas, como a Esquire, e eles, muito prontamente, as enviavam de volta dois dias antes de recebê-las! Tenho diversas paredes, em diversos cômodos da minha casa, cobertas com a nevasca de rejeições, mas eles não se deram conta de como eu era forte; perseverei e escrevi mais mil contos pavorosos, que, por sua vez, eram rejeitados. Depois, durante o final dos meus quarenta anos, eu comecei, de fato, a vender contos e conquistei uma espécie de libertação das nevascas na minha quarta década. Mas, mesmo hoje, meus últimos livros de contos contêm pelo menos sete histórias que foram rejeitadas por cada revista dos Estados Unidos e também da Suécia! Então, caro Snoopy, tire ânimo disso. "A nevasca não dura para sempre; só parece que vai".
Ray Bradbury, em "Snoopy's Guide to the Writing Life"

Eu descobri que as rejeições não são, de todo, algo ruim. Elas ensinam o escritor a confiar em seu próprio julgamento e dizer do fundo do coração: "Vá para o inferno".
Saul Bellow, para o The New York Times, em 1985

Vencer ou perder uma discussão, receber uma aceitação ou uma rejeição, não é prova da validade ou do valor da identidade pessoal. A pessoa pode estar enganada, errada, ser um podre artesão ou somente ignorante - mas isso não é indicativo do verdadeiro valor da identidade humana total de alguém: passado, presente e futuro!
Sylvia Plath, em "Os diários de Sylvia Plath", 1956

Quando eu fiquei mais velha, decidi que receber uma rejeição era como alguém me dizer que meu filho era feio. Você fica braba e não acredita em uma única palavra. Além disso, olha para esse tanto de crianças feias na literatura aí pelo mundo sendo publicadas e se saindo bem!
Octavia Butler, em "Positive Obsession"

Acho que ser rejeitado pode ser algo muito benéfico, especialmente se o trabalho não é realmente bom. Se ele for publicado, você, muito certamente, vai acabar olhando para trás um dia com muita vergonha!
Stephen King, para o The New York Times, em 1985

[Quando eu fazia leitura para o The Paris Review], descobri a quantidade de escritores que existem por aí e era aterrador! Mas eu também aprendi a não levar o processo tão a sério. Eu compreendi que se eu, uma ninguém em um apartamento na East Village (montes de manuscritos me foram enviados lá), tinha o poder de rejeitar a pilha, não podia me preocupar muito quando as minhas próprias coisas fossem rejeitadas. Isso pode ter me deixado mais resiliente... e definitivamente me estimulou a enviar para um monte de lugares ao mesmo tempo e a não encarar como algo tão precioso.
Jennifer Egan, em uma entrevista para Christopher Cox, em 2010

Fui rejeitado muitas vezes na Polônia e, mais tarde, neste país. Algumas das minhas melhores histórias foram rejeitas diversas vezes... Uma coisa boa sobre a rejeição é que ela me diz que ainda estou ativo, que continuo escrevendo. Se eu parasse de escrever, eu não seria mais rejeitado. Mas isso seria bom? Além disso, vejo a rejeição como uma prova de que meu trabalho está sendo julgado por sua qualidade e não simplesmente porque tenho nome. Isaac Bachevis Singer, para o The New York Times, em 1985

Quando você é rejeitado por um editor, você não fracassou. Você, na verdade, passou mais uma etapa. Este é um negócio muito, mas muito difícil de se estar. É preciso uma rede de apoio. Tente achar uma oficina. Você não vai querer estar sozinho nessa.
N.K. Jemisin, em sua Master Class

Podemos começar reenquadrando a rejeição como algo necessário, até mesmo desejável - não algo vergonhoso, mas um passo importante na jornada artística? A rejeição não significa automaticamente que você está aquém das expectativas; pode significar que se está arriscando, que você está inovando. No mínimo, significa que você está tentando. É preciso ser transparente com o trabalho, sobre como 99% do tempo tem a ver com fazer vistas grossas, o que ajuda bem mais os artistas do que aquele talento repentino. E também sobre o quanto isso pode te custar.

Por anos, eu não falava sobre a minha própria rejeição, erguendo a fachada que todo aspirante a escritor ergue. Mas eu era constantemente rejeitada por cada programa de escrita criativa (mestrado em artes) para o qual eu me candidatava e depois por dezenas de agentes. Quando eu consegui um agente, foi a vez do meu primeiro livro (ainda não publicado) ser rejeitado unanimemente por editores, depois rejeitado novamente por ainda mais editores, algum tempo depois. Quando meu romance seguinte foi submetido, eu passei muito tempo tendo ataques de pânico em banheiros de escritórios - até que uma primeira oferta, milagrosamente, apareceu. Esse tipo de trajetória é normal. É frequentemente muito pior. Eu só não sabia disso...

Quando alguém me pergunta, agora, se o meu primeiro romance - meu primeiro romance de verdade – talvez seja publicado, eu digo que não. Consigo ver que era ainda o trabalho de alguém que estava tentando achar o caminho. Aquelas rejeições me deram resiliência. Era o que eu precisava para me permitir escrever algo melhor, e ainda me encoraja a escrever algo melhor. Ao aceitar a rejeição, achamos espaço para fazer isso. Percebemos que muitos outros artistas estão no mesmo lugar. E talvez sejamos mais gentis e pacientes com os outros e com nós mesmos, sabendo disso.
Sophie Mackintosh, para o The Guardian, em 2019


Tradução do artigo “20 famous writers on being rejected”, adaptado por Caroline Rodrigues. Autora da reportagem: Emily Temple.

 

 

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