Série biografias: Érico Veríssimo
 



Série biografias: Érico Veríssimo

por José Domingos de Brito

Érico Lopes Veríssimo nasceu em Cruz Alta, RS, em 17/12/1905. Um dos mais populares romancista brasileiro, que imprimiu uma identidade própria ao “gaúcho” e projetou o Rio Grande do Sul na cultura brasileira com seus tipos humanos e características regionais, cuja obra foi amplamente adaptada para o cinema e TV. Foi também um dos escritores brasileiros mais traduzidos no Mundo, destacando o País no plano internacional.

Nascido numa família afortunada e tradicional, que passou por uma falência financeira, filho do farmacêutico Sebastião Veríssimo da Fonseca e Abegahy Lopes. Realizou os primeiros estudos no Colégio Venâncio Aires e aos 10 anos criou uma revista “Caricatura”, com desenhos e pequenos textos. Aos 13 já lia alguns autores nacionais e estrangeiros e frequentava assiduamente o cinema da cidade. Aos 15 passou a estudar num internato de orientação protestante de Porto Alegre, onde se destacava como bom aluno.

Em 1922 seus pais se separaram e, junto com a mãe e irmãos, foi morar com os avós maternos. Novas dificuldades financeiras fazem a família retornar à Cruz Alta, em 1926, onde tentou seguir a profissão de farmacêutico. Junto com um amigo de seu pai, ficou sócio da Farmácia Central e amargou mais uma falência em 1930. Passou a trabalhar como professor de literatura e língua inglesa. No ano anterior publicou seu primeiro texto – Chico: um conto de Natal – na “Cruz Alta em Revista”, seguido de mais dois na “Revista do Globo” e no jornal “Correio da Manhã”. Com a falência, decidiu retornar à Porto Alegre e viver de seus escritos. Foi contratado como secretário de redação da “Revista do Globo” e passou a conviver com os escritores Mario Quintana e Augusto Meyer entre outros.

No ano seguinte voltou à Cruz Alta para se casar com Mafalda e foram morar em Porto Alegre, onde finalmente adquiriu uma estabilidade financeira. Vieram os filhos Clarissa (1935) e Luis Fernando (1936) e mais tarde declarou que sem o bom-senso e a paciência da esposa não seria escritor. Por essa época, passou a traduzir livros ingleses para ajudar no orçamento doméstico. O primeiro foi O sineiro (The ringer), de Edgar Wallace. Passou, também, a colaborar aos domingos nos jornais “Diário de Notícias” e ”Correio do Povo”. Em 1932 foi promovido a diretor da “Revista do Globo”, onde indicava livros para tradução e publicação. No mesmo ano estreia com uma coleção de contos – Fantoches -, não bem recebida pelo mercado livreiro.

Algum sucesso veio ocorrer no ano seguinte com a tradução do livro Contraponto (Point conter point), de Aldous Huxley e a publicação do primeiro romance: Clarissa. O segundo romance – Caminhos cruzados -, em 1935, foi considerado subversivo pelo DOPS-Departamento de Ordem Pública e Social e renegado pela Igreja Católica, causando-lhe um interrogatório. A partir daí deslanchou a carreira de escritor com mais dois romances em 1936, uma continuação de Clarissa: Música ao longe, que lhe rendeu o Prêmio Machado de Assis, e Um lugar ao sol. Nesta época trabalhou na Rádio Farroupilha, narrando histórias infantis no programa “Os três porquinhos” e escreveu diversos livros infanto-juvenis. A consagração nacional e internacional veio em 1938 com o livro Olhai os lírios do campo, traduzido em diversos países. Só a partir daí é que “pude fazer profissão da literatura”, afirmou.

Em seguida assumiu o cargo de conselheiro da Editora Globo e intensificou o trabalho de seleção de livros estrangeiros para tradução e publicação, incluindo autores badalados na época: Thomas Mann, Virginia Wolff, Balzac etc. e criando coleções de livros como “Nobel” e “Biblioteca dos Séculos” de grande sucesso editorial. Em 1941 morou por 3 meses nos EUA, a convite do governo como parte da “política da boa vizinhança”, mantida pelo Governo Rooselvelt. De volta ao Brasil, publicou O resto é silêncio, a história do suicídio de um mulher que ele viu se atirar de um prédio 2 anos antes. Em 1943 foi convidado pelo Departamento de Estado dos EUA para ministrar aulas de literatura brasileira, por 2 anos, na Universidade da Califórnia. O convite foi aceito de imediato, devido aos atritos que vinham ocorrendo com a ditadura de Getúlio Vargas. As viagens aos EUA lhe renderam mais 2 livros: Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1947).

A partir de 1947 iniciou uma trilogia – O tempo e o vento -, que veio a se tornar sua obra-prima. A ideia inicial era contar 200 anos de história do Rio Grande do Sul (1745-1945) num único volume. O projeto resultou em 3 volumes com mais de 2 mil páginas. O 1º – O continente – saiu em 1949 e representa um marco em sua carreira. Aí encontram-se seus personagens mais conhecidos: Ana Terra e o capitão Rodrigo Cambará. Em 1950 iniciou o 2º – O retrato -, publicado no ano seguinte e segundo ele mesmo inferior ao 1º. Em 1952 tentou escrever o 3º volume, mas foi interrompido por outros livros. Publicou Noite em 1954 e foi agraciado com o prêmio Machado de Assis, da ABL-Academia Brasileira de Letras. No período 1953-56 foi diretor do Departamento de Assuntos Culturais da OEA-Organização dos Estados Americanos, voltando a residir nos EUA.

Por esta época tentou escrever a última parte da trilogia, mas não conseguiu. De volta ao Brasil em 1957 deu-se nova tentativa de concluir O arquipélago, titulo do 3° volume. Outra tentativa infrutífera se deu em 1958. Neste ano sentiu um incômodo no coração. 3 anos depois sofreu o primeiro infarto do miocárdio e após um repouso absoluto voltou a trabalhar n’O arquipélago, e entrega-o à editora em 1962. Segue publicando sucessos editoriais, como O senhor embaixador (1965), refletindo os problemas da América Latina, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti; uma autobiografia – O escritor diante do espelho (1966) – e Incidente em Antares (1971). Foi sua contribuição ao movimento literário “Realismo fantástico”, vigente na época, relatando uma rebelião dos mortos diante de uma greve de coveiros na fictícia cidade de Antares. Aproveitou a alegoria para criticar a ditadura brasileira na época.

Em 1975 lançou o 1º volume de suas memórias – Solo de clarineta -, um plano de nova trilogia que ficou apenas em 2 volumes. Foi vitimado por um infarto fulminante em 28/11/1975. O lançamento completo das memórias só foi possível em 1976 com o 2º volume numa edição póstuma organizada por Flávio Loureiro Chaves. Seu falecimento provocou uma comoção nacional e seu amigo Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema A falta de Érico Veríssimo: “Falta alguma coisa no Brasil…/Falta uma tristeza de menino bom…/Falta um boné, aquele jeito manso…/Falta um solo de clarineta”. Deixou um legado de 38 obras publicadas e a identidade definida do gaúcho brasileiro. Em 2002 foi criado, em Porto Alegre, o Centro Cultural Érico Veríssimo, contando com um Memorial e vasta documentação sobre o escritor.

Em meados da década de 1970, em plena ditadura brasileira, não era visto pelos críticos e intelectuais da época como um escritor “engajado”, como se dizia. Mas ele tinha uma explicação para esta visão: “O que dá a ideia de que não sou um escritor participante é a minha recusa em transformar romance em panfleto político”. Sua explicação pode ser melhor apreciada no livro organizado por Maria da Glória Bordni – A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política -, publicado pela Editora Globo, em 1999.

 

 

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