Mary Shelley: Criadora e criatura
 



Mary Shelley: Criadora e criatura

por Aline Peterson

Mary Shelley, filme dirigido por Haifaa Al Mansour, lançado em 2017, ano anterior ao que marca o bicentenário da primeira publicação de “Frankenstein”, retrata parte da história de vida de uma das mais brilhantes escritoras que já existiu: Mary Wollstonecraft Shelley. O filme concentra-se no período da vida de Shelley (interpretada por Elle Fanning) em que ela conhece Percy Shelley (interpretado por Douglas Booth), assim como nos períodos de escrita e lançamento de “Frankenstein”. Mary Wollstonecraft Godwin nasceu em Somers Town, em Londres, em 30 de agosto de 1797. Filha de duas personalidades importantes da Literatura: o filósofo William Godwin e a escritora Mary Wollstonecraft, Mary Shelley foi autora de biografias, ensaios, contos, entre outros. Entretanto, é devido a “Frankenstein: ou o Moderno Prometeu” que ela é mundialmente conhecida e considerada uma das mais importantes escritoras da Literatura mundial. “Frankenstein”, romance de terror gótico inspirado no Movimento Romântico, além de ser considerado um dos romances mais importantes já escritos, é um marco na Literatura, já que é apontado como a primeira obra de ficção científica da história.

No filme sobre a escritora, a essência de Frankenstein, sintetizada pela excessiva exploração desse personagem, é resgatada, trazendo, sobretudo a questão do abandono novamente para a superfície da obra, nos mostrando a profundidade dessa questão através da vida da própria autora. Shelley perdeu sua mãe dez dias após o seu nascimento. Além disso, foi abandonada pelo pai depois de começar a se relacionar com Percy Shelley, seu futuro marido. O filme, assim como o livro, trata também de questões como a perda, inadaptação e isolamento. A criatura de Shelley, memorizada a partir dos filmes de Boris Karloff na década de 30 como sendo verde com parafusos nas têmporas, um ser irracional e incapaz de se expressar, é descrita no livro de Shelley como sendo amarela, de cabelos longos, perfeitamente capaz de se comunicar e de formar ideias, muitas delas inspiradas em livros como “Paraíso Perdido” (John Milton), “Vidas Paralelas” (Plutarco) e “A paixão do jovem Werther” (Goethe), que a criatura lê para conhecer mais do mundo que o cerca. Ela também não dá nome à criatura em nenhum momento ao longo do livro. É também através do cinema que o conhecemos como Frankenstein, nome que na verdade é de Victor Frankenstein, seu criador.

O filme também traz questões que circundam a época da criação de “Frankenstein”, que envolvem outros escritores e outras obras. Foi durante a permanência na casa de Lord Byron, poeta ícone do Romantismo, no verão de 1816, na cidade de Genebra, Suíça, que Mary Shelley, assim como os demais escritores, teve a iniciativa de escrever uma história de terror: um desafio que serviria para passar o tempo, já que eles não poderiam sair do local, devido ao clima. Dois anos depois, o livro de Shelley foi publicado anonimamente, pois todos pareciam recusar sua autoria ou considerar o tema inapropriado para uma jovem. Só mais tarde, na sua segunda edição, o romance foi associado à verdadeira autora. Foi nesse mesmo verão e sob o mesmo desafio que Byron escreveu “O Prisioneiro de Chillon” e John William Polidori, “O Vampiro”, obra publicada em 1819 e atribuída erroneamente a Lord Byron. Polidori é responsável por transformar a imagem do vampiro no que ela é hoje: a figura demoníaca aristocrata que vive em alta sociedade, com alto poder de influência e persuasão. A história de John Polidori inspirou Bram Stoker a escrever “Drácula”, anos depois.

A solidão e abandono sofridos por Mary Shelley transformaram a Literatura mundial através da criação de Frankenstein, protagonista que, através de sua agonia, explora todos os limiares dos sentimentos humanos e dos questionamentos morais de um mundo que, assim como Victor Frankenstein, prefere encobrir a sua própria realidade.

 

 

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