Afinal, qual é o seu final?

por Cláudia de Villar

Jorge Alberto esteve o dia inteiro ao lado do seu celular. A resposta que ele tanto desejava – e tinha certeza de que seria afirmativa – estava demorando a chegar. Certamente estavam listando um infinito de elogios ao seu último trabalho literário, O desencanto dos sonhos. Ele sabia, tinha certeza de que esse livro estaria entre os dez mais vendidos do ano. Afinal, havia se dedicado, exaustivamente, para aquele livro. Ele havia lido muito sobre o assunto, visto muitos documentários, ou seja, não tinha como dar errado. Mas deu.

O telefone tocou às 14h47min daquela terça-feira. Ele, com ar de vencedor, atendeu ao chamado com voz rouca e emocionada. Do outro lado, veio o primeiro tombo. A voz da secretária comunicou, sem delongas, que o seu original havia sido aceito, mas havia um grande porém, o final. Aquele final não poderia constar no livro, senão ele não seria editado. Ele ficou atônito. Como assim deveria mudar o final do seu livro? Como assim haviam imposto uma cláusula em sua grande obra de arte? Impuseram. E, antes que ele pudesse argumentar, a secretária reforçou que a editora havia enviado um email com detalhes das modificações e encerrou o assunto, desligando o telefone.

Jorge sentou na poltrona sem ação. Após o primeiro instante, procurou pelo email. Teria que modificar o final. Em palavras mais verdadeiras, odiaram seu esplendoroso final. Não se conteve, ligou para o editor. Precisava falar com ele. Entretanto, o que conseguiu com a ligação foi outro tombo. Ele não só manteve a opinião, como chamou o final de ridículo. Muito óbvio, muito infantil, muito primário.

Ainda sem acreditar em sua má sorte, releu naquela mesma noite e madrugada adentro o seu livro. Era sem sobra de dúvidas um excelente texto e o desfecho estava perfeito. Mas as palavras do editor continuavam a soar em seus ouvidos. Noutro dia, repassou seu original a um amigo escritor, pedindo-lhe uma opinião sincera. Melhor não ter pedido tanta sinceridade. Pelo menos o amigo foi mais brando, concordava que a narrativa tão empolgante não combinava com aquele final tão pueril.

Jorge Alberto se desesperou nas semanas seguintes. Por mais que ele lesse e relesse e tentasse repensar o seu final, não via um novo desfecho. Havia construído toda a sua narrativa pensando exatamente naquele final. Conduziu as falas, as discussões das personagens, as ações todas para o encerramento. E agora? Como poderia mudar o marco principal de sua narrativa?

Após algumas taças de vinho, latinhas de cerveja e alguns calmantes, fez o que era preciso. Se convenceu do que já estava convencido. E pode isso? Pode. Naquela manhã de quinta-feira, reenviou à editora o seu original, repaginado.

Desta vez ele não precisou esperar muito, algumas horas mais tarde ligaram da editora. Era o próprio editor.

— O que foi isso? Você não modificou o final?

— Mas...

— Fiz questão de ir diretamente para o final e está igual!

— Mas o senhor não leu todo o livro?

— Claro que não! O problema estava no final!

— Engano seu. O final estava magnífico, o problema estava no corpo da narrativa.

 

 

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