A arte pode antecipar- se à vida?

por Jacira Fagundes

Escrevi há algum tempo uma crônica que abordava o seguinte tema: a vida pode imitar a arte? Na ocasião, eu me referia à novela televisiva, patrocinada pela Globo, em que o protagonista permanece por vários capítulos dado como morto, devido a ferimentos terríveis. Depois de um tempo abusivo da paciência do telespectador, ele reaparece vivo e curado dos ferimentos, e a história prossegue em direção ao final feliz, como costuma acontecer nas novelas.

Mas não foi o que ocorreu. O ator que protagonizava – num intervalo das filmagens – sai para um banho no rio São Francisco e, sem motivo aparente, afoga-se e morre, desta vez de verdade, sem a ilusão da cena ficcional. O país chora a morte do homem/personagem. O diretor e mais o set aniquilam-se perante o infortúnio. A morte é um fato indiscutível e terminal. Mas a ficção deve continuar. Logo é criada a cena final e a história retorna ao imaginário para o aplauso do público.

No Grupo de Criação Literária que coordeno, tivemos a oportunidade de trabalhar o texto literário baseado neste fato um tanto inusitado. Foi uma experiência interessante concluir que a vida pode, sim, imitar a arte.

Mas foi nesta semana, no alvorecer do novo ano, que me deparei com algo semelhante. Nada trágico, felizmente, bem ao contrário. É que fui tomada por outra dúvida: poderia a arte antecipar-se à vida? Pelo menos, foi o que julguei ter acontecido com um dos livros ficcionais de minha autoria e uma reportagem veiculada no jornal.

Devo admitir o fato de eu não acompanhar de perto os noticiários sobre adoção por casais que querem adotar e crianças e adolescentes que anseiam por serem adotados. A não ser quando me cai a notícia no colo, como aconteceu no último domingo. Então me interessei e me comovi com a história real de um casal de possíveis pais e de uma adolescente – nos seus 17 anos de casa-lar. Uma história real de tocante beleza.

Na reportagem, sou informada a respeito de um mecanismo que vem sendo, hoje, utilizado no sentido de agilizar os processos de adoção. Muitas vezes demorados com idas e vindas, esperanças e decepções. Trata-se do aplicativo “Adoção” – uma iniciativa do Poder Judiciário em parceria com o Ministério Público e a PUCRS. O aplicativo apresenta, além das informações básicas, fotos e vídeos de quem está à espera de uma família, disponíveis em algumas versões e prontos para serem baixados. Possibilita que os candidatos a pais visualizem as fotos e os vídeos até decorar as carinhas e repassar os perfis dos pequenos e os nem tanto pelo tempo que interessar.

Quando os pais desta história de vida depararam com o perfil e o rosto de sua menina eles já começaram a adotá-la. Pronunciaram com emoção – é nossa filha! Igualmente, a adolescente sentiu, ainda na casa-lar, sensação semelhante – são meus pais! Experimentava pela vez primeira a sensação maravilhosa de pertencimento ao depositar o olhar nas fotos dos pais adotivos.

No meu livro lançado em 2012, intitulado “O quadro na parede”, eu criei a personagem Alice – uma menina extraordinária que é adotada por pais igualmente extraordinários. Sem ter sido abduzida por qualquer instinto ou premonição de que um dia, em pleno 2019, eu viria a saber da existência deste processo de fotos e vídeos veiculados dentro de um sistema para adoção, eu criei também a minha “Casa-Lar dos Pequeninos” – este o nome do orfanato no livro – que acolheu a personagem Alice até os três anos de idade. E a fez escolher os pais adotivos por meio de um álbum de fotos que a entidade criara.

Em “O quadro na parede”, a mãe de Alice é chamada às pressas pela diretora do Lar: – Venha logo que Alice acaba de lhe apontar no álbum e está pedindo que sua mamãe venha buscá-la.”

Daí que, frente à reportagem, me pergunto como eu pude antecipar-me, ter esta antevisão de uma realidade até então desconhecida, estando, naquela ocasião em tempo passado, restrita à arte literária com exclusividade.

Nas escolas, em conversas com adolescentes que me perguntam de onde tirei tais ideias para escrever “O quadro na parede”, na maioria das vezes, fico sem resposta plausível. Escritores costumam ser tomados por dúvidas e incertezas quando lhe fogem explicações concretas a respeito dos processos de criação de uma obra literária.

Quanto ao meu processo, vou passar a consultar meu oráculo. Quem sabe mais previsões venham por aí!

PS: deixo aqui o email de utilidade pública: adocao@tjrs.jus.br

 

 

Comentários:

Jacira teu texto me pôs a pensar na escrita como uma forma de sublimação de conteúdos inconscientes. Jung estou o inconsciente, o que nos ajudaria a pensar isso que tu chama de uma ante visão do fato real. E podemos pensar também nas memórias filogenética que são de toda a humanidade. E que alguns tem a possibilidade de trazer a tona. Como fala o título de nossa última coletânea, quando o verbo vira trama. Nesse campo da adoção existem situações inusitadas. O Ministério Público do Estado do RS tem museu junto a praça da matriz que disponibiliza acesso ao público em geral de algumas dessas histórias . Vale a pena visitar. E outra questão que não apenas na escrita nós debatemos que é o tema da originalidade. Conseguimos ou não escrever algo totalmente original ? Penso que sim, podemos. E ainda outra questão lembro quando escutava pessoas durante o cumprimento da pena de relato de delitos que mais pareciam um livro do Stephen King. O certo e que escrever nos impede de atuar, e isso é criatividade.

Magaly Andriotti Fernandes, Porto Alegre, Rio Grande do Su 23/03/2020 - 18:37

Marcelo, já passei por coisas parecidas. Em 2006 lancei o livro Retratos de Uma Vida. Em 2007 a TV Globo exibiu a novela Páginas da Vida do autor Manoel Carlos e direção de Jayme Monjardim. Foi uma ficção, é verdade, mas a novela trazia muito do meu livro e até hoje fico me perguntando: "terá o autor lido meu livro e usado como inspiração" Infelizmente, nunca saberei. Mas eu acredito sim que escritores tem o dom de fazer certas previsões e a história está repleta de livros assim, que escrevem algo e depois o que foi escrito vira realidade, principalmente na ciência. Penso, que os escritos acabam servindo de inspiração para pesquisadores de diversas áreas.

Prescila Francioli, Campo Mourão/Pr 03/02/2020 - 09:04

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