Cena de balé

por Simone Saueressig

Na cena iluminada de azul, a bailarina dança: roupa branca, brilhos fugidios como os gestos, como o equilíbrio na ponta do pé. Uma solista, um pas de deux, um corpo de baile. Só em cena somos possíveis. Só em cena somos as criaturas mágicas de nossa imaginação, aquelas que construímos cuidadosamente diante do espelho. Aquelas que são o que amamos, que são parte de nós, a parte que mostramos aos demais, mas que não são o todo de nós mesmos.

Talvez por isso, dizem que o palco é mágico.

Espaço de todas as cores, de todos os lugares, o palco é o recorte fantasioso onde tudo pode acontecer, do cotidiano ao incomensurável. Sim, de fato: o palco é um espaço único. O lugar onde a mágica se mostra, emoldurada pela invisibilidade da vida real que acontece nos bastidores.

Pois tudo acontece nos bastidores: trocas de roupas, rainhas e criadas, lado a lado, acompanhando o desenrolar da vida no espaço iluminado, logo ali. Os bastidores são sombrios. Se iluminam com o que vem do outro lado das cortinas. Há muito da caverna de Platão nos bastidores, onde as sombras sempre se delineiam gigantescas, profundas, assustadoras, em paredes caiadas de negro, a cor sobre a qual se pintam todas as ilusões do palco, essas, sempre geradas nas sombras dos bastidores. Ninguém adentra ao espaço iluminado onde tudo é possível, sem passar pelos corredores obscuros onde somos confrontados com nossas humanas limitações. Todos os medos se escondem nos bastidores: o medo de errar, de ser ridículo, de ser pouco, se ser apenas mais um, medíocre, pequeno e esquecível. Medo de se descobrir iluminado e iluminante, medo de ser nada, medo de ser tudo. Nos bastidores, nos deparamos com nós mesmos.

Mas há um umbral entre os bastidores e a cena, onde realmente a mágica acontece. Pessoas comuns erguem a cabeça e adentram a majestade dos reis na cena, dois passos adiante. Pessoas de fibra se transformam em mães aflitas, em amantes ciumentos, inseguros de seus amores, implorantes pelo bem dos que os rodeiam. As camponesas que circulam no palco sorridentes e galhofeiras, atravessam o espaço e se esgueiram para as sombras, preocupadas, ansiosas, às vezes quebradas de dores, as lágrimas correndo fartas onde um passo antes escorria apenas o suor luminoso sob as luzes que imitam o sol. Rapazes que pareciam altos e bravos se despem de tudo para ser um feixe de temores. O lindo fantasma que se desvanece em cena e leva a plateia a pensar na fortaleza do Amor Verdadeiro, se abaixa lentamente atrás do cenário, e engatinha como uma criança para longe do que foi, por tantos momentos, a sua única verdade. Engatinha de forma prosaica e cômica, e eu rio baixinho, porque se no palco a mágica se revela, é nas coxias que ela acontece.

As coxias. Largos panos caídos ao lado da cena iluminada, ocultando de todos a moldura da vida sombria dos bastidores, onde o espetáculo, realmente, se faz. Ninguém vê as coxias. Ninguém lhes dá atenção. Elas estão ali para não serem vistas, estão ali para ocultar, estão ali porque são o passe de mágica que nos transforma, que nos acolhe, que nos atira à cena para brilhar ou desaparecer.

O palco é mágico, dizem. Dizem, porque não sabem que mágicas, mesmo, são as cortinas que nos permitem ser o queremos, quando nos expomos, e apenas quem somos, quando voltamos ao quieto recanto de nós mesmos. Um segundo de vida, um instante entre um passo e outro, para sermos quem somos e quem queremos ser, iluminadas sombras da mesma criatura, exatamente ao mesmo tempo.

 

 

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