O papel curador da arte na sociedade pós-moderna - parte II

por Rafael Figueiredo

“a boca na pedra o levara a cacto a praça o relvava de passarinhos cantando ele tinha o dom de árvore ele assumia o peixe em sua solidão”

Antissalmo por um desherói – Manoel de Barros

Vamos pensar agora na palavra como signo dessa linguagem de afetos: se já percebemos que a palavra tem “essa coisa de pegar costume”, ela precisa ser melhor apreciada por nós enquanto fazedores de poemas. Ou seja, do neologismo a expressões aparentemente desconexas, nossos recursos são muitos. E é importante que façamos uso deles, sempre que possível, na busca de uma linguagem mais adequada ao que somos e sentimos. Já falamos: nossos afetos são indefinidos. Mesmo que tanto tentemos adequá-los a conceitos na busca por alguma segurança emocional, não respeitam qualquer critério a eles imposto. Por essa razão, não respondem a “palavras prontas”. Posso dizer que há quem ame feito laranjeira, quem goste de dor de voo e até quem se aborreça com conversas de caracol, e assim me aproximo ainda mais do sentido real de meu sentimento a respeito de tais assuntos.

Nossa capacidade de codificar signos e seus significados é algo que está além do nosso imaginário trivial. Creio que isso se dá devido aos primeiros passos do processo cognitivo da infância, pois é a criança o maior poeta já visto. Suas relações com o imaginário e associações com os significados são sempre singulares e expressivas. Na infância, a palavra é jovem também, tudo é aprendizado, e não há importância em se trocar os sentidos e o nome das coisas. Gostaria de dar um pequeno exemplo disso: meu filho, certa vez, quando tinha aproximadamente dois anos de idade, apontou para a lua com uma das metades de um prendedor roupas e disse “Abrir a lua”. Em um primeiro momento, não entendi, mas depois percebi que a lua estava minguante, e a “chave” que ele tinha na mão pretendia deixá-la maior, pois sempre lhe mostrávamos a lua cheia; ou, ainda, talvez fosse qualquer outra questão que o levava a pensar ter uma chave na mão e que a lua (uma fechadura) poderia ser “aberta”. O que importa nesse caso é que todos os signos estão em discordância com seus sentidos de uso, todavia, absolutamente encaixados no objetivo da ação. Isso, a meu ver, é poesia.

Escrever poesia, portanto, é também reencontrar a infância dos sentidos, onde a mudança e a novidade são a regra, e não a exceção, à maneira da vida adulta. E ao nos povoarmos desses sentidos novos, retornamos ao brincar, não como uma atividade inútil e frívola, mas com a seriedade da criança, que considera a brincadeira sempre algo muito importante. Nós, por outro lado, julgamos o brincar algo distante da importância das coisas – um dos nossos maiores enganos a respeito da criança e de sua prática de agir sem sentido de uso. Portanto, pensemos na poesia como a arte de brincar com palavras, não de contê-las nem de impregná-las de significados cansados ou práticos.

 

 

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