Outra coisa

por Rubem Penz

Quando eu morrer, quero à beira da sepultura todos os meus amigos e alguns dos meus inimigos, arrependidos. Depois dos risos e lágrimas, voltem para casa e nunca mais se esqueçam de mim.
Paulo Sant’Ana



Faleceu aos 78 anos o jornalista gaúcho Paulo Sant’Ana. Entre outras atividades, ele foi o titular da coluna que fecha o jornal Zero Hora por muitos anos, herdada do lendário Carlos Nobre, mantendo – até reforçando – a tradição de os gaúchos lerem o periódico de trás para frente. Sua força pode ser medida pelo fato de receber, até hoje, o prêmio “Top of Mind” da revista Amanhã, mesmo depois de ter deixado de escrever por causa de sua precária saúde faz anos.

De todos os cronistas sobre os quais sempre fui chamado a opinar sobre as qualidades durante as oficinas literárias, um dos mais frequentes é justamente o Sant’Ana. E no começo isso me perturbava: como ser sincero (e dizer que não gostava de seu texto) sem parecer invejoso? Afinal, um neófito riscar a brilhante superfície de um deus é ousadia passível dos piores julgamentos. Para agravar, minha única experiência ao vivo com ele não foi das melhores: jovenzinho, redigi um comercial de TV para o lançamento imobiliário no qual seria o protagonista. Ao acompanhar as gravações, colhi dele um misto de arrogância e desprezo, para mim completamente incompatíveis com sua popularidade e com o polpudo cachê envolvido.

Até que, certa feita, ao me queixar do destino, o amigo Poti Silveira Campos ajudou a iluminar as ideias. Ele trabalhara muito tempo na redação do jornal e disse jamais ter conhecido alguém capaz de antecipar uma manchete de capa com maior precisão do que o Paulo Sant’Ana. Nem uma ou duas vezes, com a edição sendo finalizada, vaticinou: essa capa está errada. A manchete é essa outra notícia. E, na manhã seguinte, o jornal esgotava nas bancas. Enfim, seu grande mérito não repousava na qualidade textual, e sim na capacidade intuitiva de vibrar na frequência do povo, de antecipar suas preferências, de chamar a atenção para o que havia de mais relevante.

A partir de então, e até hoje, quando me perguntam sobre os diversos cronistas, e incluem o Sant’Ana, digo que ele não é cronista, ele é Paulo Sant’Ana. Mais: é o melhor Paulo Sant’Ana de todos os tempos. Somos enquanto escritores, enfim, uma coisa, e ele outra coisa. Isso não faz o texto dele melhor – queixa minha, mesquinha talvez –, faz tão somente ser único. Algo a se reverenciar sem dúvida.

 

 

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