Poesias
Ictiofilia
Márcio Lauria Filho
Verão. Três da tarde.
Luz, luz e luz.
O primeiro menino goza de dez anos,
Boas notas e lição de casa feita.
A falha na cerca do quintal o induz ao córrego que brilha.
Chega o irmão de nove.
Rio acima, como de costume.
Pitangas a estibordo,
Lírios do brejo e bambu na margem oposta.
Ao fundo, a curva, o pocinho e as locas de cascudos.
Rápida inspeção no dique de pedras,
Correria, algazarra, guerra d?água,
Embriaguez própria da felicidade de estar à toa.
Mãos e pés à obra:
Um cerca,
O outro corre as moitas tangendo os peixes.
Alçado do desvão das pedras em momento exato,
Um cardume inteiro de timburés se debate na trama da peneira.
Meu Deus, a glória absoluta da visão multitudinária!
A confusão de escamas prateadas, rabos, guelras, nadadeiras,
Olhos e listras negras
Girando em seguida no carrossel exíguo do vidro de palmito.
Depois, o retorno à base e a contemplação dos reféns
Até que o chamado da avó oficialize
O que o zarcão no perfil dos morros já prenunciava.
Fim de jogo.
Soltar os peixes, que amanhã tem mais.
* * *
Passados tantos anos
A maturidade capta o melhor da estória:
Aquele de dez era eu.
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