Jogo do Bicho
 



Poesias

Jogo do Bicho

Bianca Carvalho


Todos aqueles que cresceram conosco
E todos aqueles que nos viram crescer
Sempre que eu passo, me alugam
Perguntam como anda você
Com que olhar eu disfarço?
Que não sei mais dos seus passos
E que eu morreria para saber

- É que ocês viviam juntos, pra cima e pra baixo! A essa altura, achei que tavam casados! Mas deixa eu ir lá, querida, tenho que passar no mercado. Mande a ele um cherô e um forte abraço!

Lembra quando achávamos
Que a lojinha do Seu Zé
Era lavagem de dinheiro?
Bom, eu ainda acho que é
Seu Zé era bicheiro
Dono de cabaré
Fazia exame de vista
E vendia sacolé
Ele era especialista
Na ciência do migué

- É fácil ganhar no jogo do bicho. A banca quase sempre ganha. Mas o povo tem seus licutichos, suas mandingas, suas manhas.

Eu fingia prestar atenção
Naquelas crendices suburbanas
Quanta baboseira!
Prestes a embalar meu "Não!"
Seu Zé era uma ratazana
Mas eu era mestre em ratoeiras
Imagine, então, a minha cara, incrédula!
Quando te vi contando as cédulas
E cada centavo da tua carteira
Você estava levando a sério
Como se fosse um grande mistério
Toda aquela asneira

Ah! Eu já deveria ter pressuposto
Que amigo meu teria esse gosto
Meio místico, meio tosco
Tua inocência me fazia rir, apesar do desgosto
E Seu Zé continuava o espetáculo
Ele mal podia conter o entusiasmo
Tu eras a mais nova alma que ela havia raptado

- Tens que acreditar nos seus sonhos. Eles são mágicos! Todo sonho tem um significado. Junte isso a hora que o relógio marca assim que você acorda, e tá feito. Se não der certo, você não fez direito. Deve ter escapado um sinal aqui ou acolá. Continue a tentar. Terno, duque, quadra, quina. Eu tô sempre nessa esquina. É só jogar.

- Isso é só um jogo de sorte - retruquei, mas queria mesmo ter dito "jogo de azar"- Eu só vim pegar os óculos da minha mãe. Ela tá uma semana sem enxergar.

- Jogo de sorte só jogamos com a Morte. Cá estão os óculos dela. Ei, garoto, não escute ela! Deixe os sonhos te guiar!


E desde então você gastou
Cada tostão que ganhou
Limpando carros
Entregando quentinha
E varrendo asfalto
Naquele assalto à lábia armada
Mas, tudo bem, eu admito
Até que foi divertido
Quando você ganhou aquela bolada

E eu sei que você insiste
Em dizer que foi o tigre
No teu sonho, que te fez ganhar
Mas para mim é estatística
Não existe regra mística
Uma hora a probabilidade iria te laçar

E com o prêmio que você ganhou
Distribuiu sacolés para todas as crianças da rua
Como fizera em todos os outros meses de verão
Banho gelado no chuveirão
Conversas idiotas à luz da lua
Mariposas da luz zonzando no poste
Cigarras catando à própria morte
Nosso primeiro beijo vinha forte
Quente como o sopro do vento
Úmido como todos os sonhos lentos
Que tive sobre você
E que eu ainda continuo tendo
Mesmo depois de você desaparecer

Bom, me diga agora, que tipo de jogo eu faço
Para ganhar-te de volta?
Desde o dia em que você foi embora
Eu só sonho com o animal que você se tornou
A fera sem coração que me abandonou
Nesta cidade fantasmagórica
É uma batalha sem glória
O bicho da saudade devora
Os restos que você deixou
E eu jogo com dados viciados todos os dias
A cadeira ao meu lado segue vazia
Por que você nunca me retornou?

Todas as histórias que temos
Eu não as construí sozinha
Mas isto tornou-se um monólogo, e eu temo
Que agora elas são só minhas
Desde quando você pegou a estrada
Sem olhar para trás
Tratou 17 anos como nada
Você nem me liga mais
Mas que droga! Você se casou!?
Eu soube pelos seus pais

- Foi uma cerimônia íntima. Nada demais. O nome dela é Cíntia, ela trata de animais. Mas não é veterinária, eu esqueci o nome do que ela faz. É Zoo-alguma-coisa-do-tipo. Eu até brinquei: "Vai dizer que cê joga no bicho?! Olha que ele vai gostar mais!"

Tentei disfarçar o riso amarelo
Para dizer que desejo felicidades
Mas eu não quero
E não pode ser verdade
Que temos 27 agora
E eu não sei dos seus carnavais
Você não só foi embora
Como sempre me ignora
E simplesmente não retorna
Nenhum dos meus cartões postais

O que mais me irrita
É que eu não te conheço mais
Mas se você se importasse em saber
Ainda me conheceria por quem eu sou
Porque nada em mim mudou
Nem mesmo o amor que eu sentia
Antes da sua partida
E que eu continuei sentindo
Mesmo após sua ida

- Essa cidade foi meu berço, mas não será mais meu lar. Mas não se preocupe, são só seis horas de carro. Dá até para ver o meu rastro. Nos finais de semana e feriado... eu volto para cá! Você também pode me visitar. Seu telefone sempre irá tocar!

Promessas mantidas
Por tão pouco tempo
Dois meses
Para ser exata
Até que notícias suas
Ficaram escassas
E eu tentei tanto
Por tanto tempo
Te trazer de volta
De tantos jeitos
De todas as formas
Por todos os deuses
Em todas as horas

Acontece que por aqui...
As ruas, as esquinas,
Os bares, as ruínas
Tudo contina igual
As árvores, as poças
Os rapazes, as moças
Ninguém mudou de código postal

E este sempre foi o problema, afinal
Você não suporta monotonia disfarçada de paz
Se via preso neste dilema
Por isso se arriscava em jogos ilegais
Mas, sabe, existiam outros remédios
Para acabar com o tédio
Você não precisava ter se desfeito de nós
Nenhuma arquitetura moderna é tão charmosa
Quanto a saudosa casinha de nossos avós
E eu duvido que neste condomínio prateado
Cravado e erguido em solo asfaltado
Você encontre alguém vendendo sacolés
Se te incomodava a vida mansa
A gente inventava uma dança
Acordava a vizinhança
Você não precisava ter dado no pé
Nós daríamos um jeito
E para todos os defeitos
Ainda tinha o cabaré

E eu...
Se você quiser
Sempre que você quiser.

Eu sou mais tua do que esta cidade é do prefeito
Eu sou mais tua do que esse povo é fofoqueiro
Eu sou mais tua do que Seu Zé é trambiqueiro

Então da próxima vez que se deitar no travesseiro
E eu não aparecer nos seus sonhos
Montada naquele tigre
Desiste!
Aceito que será o nosso fim

Mas e se de repente
Eu ainda passear pela sua mente
E você sabe que os sonhos não mentem
Palpite!
Você aposta em voltar para mim?

 

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