Cronicas
Estilos
Simone Gehrke
Toda história tem uma estrutura básica: começo, meio e fim. Era o que ela afirmava com convicção e ele discordava com paixão.
- Mas... - acrescentava, antes que a mulher pudesse encerrar o assunto, seguindo com um emaranhado de poréns, todavias, contudos, entretantos...
- Viu que até a sua ideia de continuidade precisa de ponto?
- Três deles, você quer dizer... Aprecio as reticências porque fazem as vezes da vírgula, não permitindo que uma conversa acabe de forma precipitada; sempre há novas nuances, pontos de vista inusitados, abordagens distintas.
- Com licença - ela interrompeu. Se dependesse de você, o ponto final seria extinto.
- Ele é apenas uma convenção humana; necessária, é verdade, se for para empacotar criações artísticas, livros, novelas, filmes; é o que estou querendo dizer, mas veja que algumas séries, com suas novas temporadas, já acenam para a tendência que estou falando; parece que as pessoas começaram a entender que o término não é uma obrigação em si mesma; que uma história não se extingue quando um personagem sai de cena; se dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço no tempo, como aprendemos com a física, o vácuo abre espaço para que outros ocupem o lugar vazio; além disso, a vida continua.
- Isso é o seu jeito de pensar - cortou ela, com rispidez.
- Meu estilo de ser - ele corrigiu. ? Reflexivo, ponderado, avaliando os mais diversos conflitos e interesses em cada questão tratada, não deixando escapar uma informação que pode ser crucial para que se elabore uma opinião assertiva, responsável e consistente sobre um fato.
Passavam as horas e os dias às voltas com o dilema; gastaram assim seus anos, sua serenidade e juventude. Em prol da cumplicidade, não estavam dispostos a rever o jeito de ser ou o estilo pessoal (a palavra escolhida, como já vimos, dependia do gosto do interlocutor).
Talvez não conhecessem uma frase popular - que alguns atribuem a Shakespeare: "O casamento faz de duas pessoas uma só, mas difícil é determinar qual dos dois". Ou, se a conheciam, acreditavam que não se referia às suas diferenças linguísticas. Se ele era insuperável em encontrar uma oportunidade para uma nova vírgula, ela mal conseguia conter a ansiedade pelo próximo ponto.
Simone Gehrke é jornalista e escritora. Atuou como cronista no Jornal A Notícia, de Joinville, por 8 anos, onde publicou mais de 400 textos. É autora do livro de crônicas Percebes, patrocinado pelo Edital Elisabete Anderle (2014). Foi vencedora da categoria conto/crônica do II Prêmio Joinville de Expressão Literária (2005) e participou de diversas coletâneas, como Frestas (SESC/2009, com curadoria de Tabajara Ruas), 5º Concurso Literário de Conto (Sinergia/2005) e Contos Desamordaçados (Concurso Crispim Mira), 1999. Integra a Academia Joinvilense de Letras desde 2017, sendo vice-presidente na gestão 2024-2026.
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