Cronicas
Saudades de Manu
Simone Gehrke
O escritor e poeta Rubem Alves disse, certa vez, que tem visto muitos cursos de oratória mas nenhum de escutatória. A questão é intrigante. Se é verdade que em nenhum outro momento da história o ser humano teve tanta liberdade e oportunidade para expressar seus pensamentos, na proporção inversa, nunca houve tão poucas pessoas dispostas a escutar.
O tema voltou a cruzar meu caminho nas páginas do livro "Fama - um Romance em Nove Histórias", do escritor alemão Daniel Kehlmann. No episódio "Rosálie viaja para morrer", a protagonista, portadora de um câncer incurável, prepara-se para uma viagem sem volta à Suíça. Antes da partida, convida as duas melhores amigas para um café.
"Agora, em plena tarde, as três velhas senhoras estão sentadas na melhor confeitaria da cidade e conversam sobre seus netos. Ninguém se interessa pelos das outras, mas todas escutam para ter o direito de falar dos próprios." Rosálie me fez ver que a escassez de escutatória é universal e vem evoluindo com o passar dos anos.
Se os contemporâneos de Rosálie têm um ouvido educado, ou interesseiro, já que é moeda de troca para conquistar sua vez na fala, a geração de seus filhos encontrou uma forma diferente de lidar com a interação humana. Acabou com a formalidade da educação, adotada pelos pais, e criou o ouvido seletivo, que possibilita às pessoas ficar aparentemente distraídas e só participar da conversa nos momentos de interesse.
As facilidades da tecnologia ajudaram os netos de Rosálie a inovar mais uma vez. Surgiu o ouvido indisponível, ocupado por fones, com a dupla finalidade de entreter e afastar os ruídos mundanos, especialmente uma conversa. A essas alturas da reflexão, senti saudades de Manu, personagem de minha infância.
"O que Manu sabia fazer melhor do que qualquer outra pessoa, era ouvir. Não é coisa que qualquer um pode fazer. E a maneira como Manu ouvia era realmente fora do comum. Manu ouvia de um jeito que fazia as pessoas burras ter ideias inteligentes. Ela não dizia, nem perguntava, nada que pudesse pôr tais ideias na cabeça das pessoas: ela ficava simplesmente ali sentada, ouvindo com atenção e simpatia. E fitava a pessoa com seus grandes olhos negros, dando-lhe a impressão de que as ideias que surgiam haviam nascido espontaneamente".
Não vejo Manus nas escolas, nas ruas e nos shoppings. A personagem original, do livro "Manu, a Menina que Sabia Ouvir", de Michael Ende, também sumiu das estantes das livrarias. Se o leitor tiver sorte de encontrar um exemplar remanescente nos sebos, ou se conhecer uma Manu de verdade, deve preservá-la, garantindo a sobrevivência desta espécie em extinção.
Simone Gehrke é jornalista e escritora. Atuou como cronista no Jornal A Notícia, de Joinville, por 8 anos, onde publicou mais de 400 textos. É autora do livro de crônicas Percebes, patrocinado pelo Edital Elisabete Anderle (2014). Foi vencedora da categoria conto/crônica do II Prêmio Joinville de Expressão Literária (2005) e participou de diversas coletâneas, como Frestas (SESC/2009, com curadoria de Tabajara Ruas), 5º Concurso Literário de Conto (Sinergia/2005) e Contos Desamordaçados (Concurso Crispim Mira), 1999. Integra a Academia Joinvilense de Letras desde 2017, sendo vice-presidente na gestão 2024-2026.
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