O paradoxo
 



Contos

O paradoxo

Carina Mendes


Sentou-se no bar e pediu uma cerveja. Mal apoiou o celular na mesa, o garçom serviu a bebida. O primeiro gole consumiu metade do copo, o segundo, metade da metade. Nesse ponto, virou a tela do celular para baixo e se permitiu recostar. O olhar enfrestado pelo sol das onze parecia não ter no que mirar e passou a acompanhar o movimento da rua. Seguiu a mulher com o carrinho de bebê, seguiu a moça em roupa de academia, seguiu a senhora com o carrinho de feira, seguiu os obstinados do crossfit.

Terminou de beber a última metade da metade e serviu-se de mais. A cada gole consumia metade da dose anterior, como numa progressão geométrica decrescente, ou como se quisesse comprovar o paradoxo de Zenão, atribuindo à bebida um caráter infinito. Fato é que as doses, tomadas assim, com sequência, intervalo e métrica, se assemelhavam a um mantra, pareciam ritmar sua respiração e acalmar seu espírito.

Passou a olhar as construções do entorno, os elementos fixos da paisagem. Os prédios, a padaria, a farmácia, o posto de gasolina, o mercado; fixou os olhos nesse último, como se lhe trouxesse lembrança. Permaneceu assim o tempo de comprovar a finitude da cerveja. Chamou o garçom, pagou a conta e colocou o celular no bolso sem olhar para a tela.

Atravessou a rua e entrou no mercado. Minutos depois, saiu com uma sacola que devia conter dois ou três itens e caminhou como se só as pernas houvessem decidido a direção. Na esquina seguinte parou, olhou para os dois lados; parecia uma escolha de vida. Por lucidez ou fraqueza virou à direita. Entrou no prédio, pegou o elevador e bateu à porta. “Graças a Deus, amor, por onde você andava? Já está quase na hora do churrasco. Já fez o molho à campanha?”. “Só falta o tomate”. “Então corre porque ainda tem que arrumar as crianças”.

A mulher se dirigiu à cozinha, apoiou a sacola de compras na pia, retirou os tomates e os colocou sob o jato d’água. Pegou a tábua e a faca. Num desvio, olhou em direção à área de serviço e viu as caixas amontoadas da última mudança, estratégia que visara reestruturar aquela relação. Mas a permanência das caixas, ali encostadas, por seis meses, era o simulacro de uma incerteza. Voltou-se para a pia, fechou a torneira, apoiou a tábua e pegou o primeiro tomate, partiu-o na metade, depois na metade da metade, depois na metade da metade da metade. Seguiu cortando-o assim, em pedaços cada vez mais diminutos, como se quisesse tornar a tarefa inacabável, um paradoxo, uma homenagem a Zenão, ou como se quisesse invisibilizar-se, evanescer-se, sumir.


Carina Mendes é arquiteta e urbanista, trabalha no campo do patrimônio cultural e é professora universitária. Fez mestrado e doutorado, publicou artigos. Depois da imersão na escrita acadêmica, precisou respirar, mudar de ares, e resolveu navegar pela literatura. Entusiasmada pelas leituras, acreditou que podia escrever textos de ficção e se inscreveu na Oficina de Criação Literária do Marcelo Spalding.


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