Feiras da vida
 



Crônicas

Feiras da vida

Neusa Maria Carlan Sá


Os literatos que me desculpem, mas livros são como nabos, abacaxis e outros legumes e frutas mais.

Um dos meus passeios favoritos é acordar-me cedo, aos sábados, colocar uma roupa apropriada e, durante o trajeto, já vou mentalmente visitando os lugares que desejo percorrer na feira ecológica do Bom Fim. É um encontro e uma alegria indescritíveis: os cheiros, a vida vivendo naqueles vegetais e frutos, o prazer de rever alguns amigos e o bate-papo despretensioso com os feirantes. E por falar neles, não conheci ainda ser mais alegre e de bem com a vida que um feirante. Por acaso você já viu um feirante com a cara fechada, com ar sisudo? Porque da maneira mais singela possível, esses medianeiros entre dois reinos oferecem-nos a forma mais sagrada de permanecermos na vida, que é através do alimento.

Em meio a uma profusão de apelos materialistas, com o avanço da industrialização e embotados pela Lei do Mercado, ao irmos à feira penetramos em um outro mundo, voltamos um pouco ao passado e ensinamos aos nossos filhos que laranja não nasce na prateleira do supermercado.

Mas voltemos às desculpas. Quando vamos a uma feira de livros, à exemplo desta que acontece todos os anos nos tempos primaveris em Porto Alegre, também entramos em um outro mundo; viajamos por universos imaginários e outros reais desta dimensão. Não é à toa que em um espaço a céu aberto, verduras legumes e livros recebem a mesma palavra para designar aquele momento tão esperado: “a feira!”.

A fome de livros é a mesma fome de alimentos. A diferença é que uma alimenta o corpo e a outra alimenta a alma. Ambas – a feira de livros e a feira de alimentos – tem mais um ponto em comum: quanto mais delas nos alimentamos, mais delas queremos nos nutrir. Portanto, como serva de mim mesma, alimento o meu corpo e a minha alma saciando minhas fomes.

Livros e alimentos não sufocam a individualidade de cada ser, pois existem em tamanha diversidade que saciam todos os gostos. A feira, portanto, é um espaço democrático por natureza, tanto por parte dos seus frequentadores quanto por parte da variedade de produtos que lá são oferecidos.

Feira é também sinônimo de simplicidade onde a riqueza em essência está no interior de cada produto.

E você, tem fome de quê?


Neusa Maria Carlan Sá participa do Curso Livre de Formação de Escritores promovido pela Editora Metamorfose. Graduada em Pedagogia e Psicopedagogia, mestre em educação, é autora do livro infantil Robôs em apuros. Locutora e apaixonada pelo universo da comunicação escrita, falada e desenhada e faz desse contexto seu trabalho e seu lazer.


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Comentários:

À Flávia, José Antônio, Maria do Horto e Maria Clara.
Obrigada pelas impressões e sentimentos compartilhados. Que sigamos sempre em frente e felizes no propósito de alimentarmos a nossa alma. Abraço.
Neusa Sá

Neusa Maria Carlan Sá, Barueri 07/11/2021 - 23:50

Que bela reflexão! Eu também tenho fome de livros e verduras, bem como de música e outras artes. De tudo quero um pouco, variado e despoluído de venenos e preconceitos.

Maria Clara, Pântano do Sul/SC 03/11/2021 - 14:20

Parabéns por esse belo texto. Assim como você minha alma e minha mente são sempre alimentadas pela leitura.

Maria do Horto Jacques, Porto Alegre 03/11/2021 - 13:04

Bem, outra coisa que me nutre é a música. De vez enquando tenho que fechar os olhos, para o mundo, e voar com música. Penso que tudo que foi se encaixa na música. Bjos Neusa.

Jose Antonio de Bittencourt, Porto Alegre 03/11/2021 - 09:11

Texto maravilhoso. Despertou imaginariamente meu olfato na feira do Bom Fim e fui capaz de sentir o ventinho quente da feira do livro ....

Flavia Tatiane Machado, Capão da Canoa 02/11/2021 - 18:12

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