Leitura crítica - o que é, como trabalhar com isso e quem contrata
 



Dica de Escrita

Leitura crítica - o que é, como trabalhar com isso e quem contrata

Escrita Criativa


A leitura crítica é um processo fundamental para quem é escritor, pois se trata da edição do livro em um processo inicial. Diferentemente da revisão, a leitura crítica olha para aspectos amplos do texto, como estrutura narrativa, função dos personagens, concisão, subtexto, muitas vezes propondo cortes de frases, parágrafos ou até capítulos inteiros, bem como adequação de linguagem. Hoje também é importante que o leitor crítico aponte problemas de conteúdo que possam soar preconceituosos ou ofensivos. Inclusive, há uma função específica para esse trabalho, chamado leitura sensível.

Quem contrata este trabalho são autores antes de enviar seus originais para editoras ou textos para concursos, autores independentes – todos deveriam contratar um bom leitor crítico/editor antes de publicar seu livro de forma independente – e editoras.

Não há uma formação específica para se trabalhar como leitor crítico, mas sem dúvidas a formação em Letras ajuda muito, bem como passagem por oficinas e cursos de escrita. A Metamorfose, por exemplo, só tem trabalhado com leitores críticos egressos do Curso de Formação de Escritores.


Para tratar com mais propriedade sobre Leitura crítica – o que é, como trabalhar com isso e quem contrata, conversamos com três profissionais que exercem essa atividade e têm experiência com o tema: Maiara Alvarez, Kátia Regina Souza e Marcelo Spalding. Confira!

Como funciona o trabalho de leitura crítica – etapas


O processo de leitura crítica realizado pela Kátia segue os seguintes passos: ao contrário de alguns profissionais que entregam um relatório ao final do trabalho, apontando se há necessidade de mudanças, ela prefere trabalhar com comentários ao longo do texto, pois facilita para o escritor (em particular se a narrativa exige várias intervenções). Kátia, então, aponta exatamente qual é o problema e sugere alternativas de correção, sempre pensando em aspectos como coesão, coerência, verossimilhança, construção de personagens e de mundo etc. Após essa análise aprofundada, ela devolve o texto ao autor, que, na sequência, confere seus comentários. Se surgirem dúvidas, eles vão conversando via e-mail até finalizar o projeto. Kátia lembra que pessoas diferentes demandam trocas diferentes, por isso, o processo é único para cada cliente.

Maiara, por sua vez, segue essas etapas: primeiro, estabelece um compromisso com o autor do texto e os resultados a serem atingidos, que dependem do tipo de projeto. Na sequência, ela recebe os originais e elabora o orçamento. Ela aconselha a dar o orçamento somente mediante o original, pelo menos as primeiras páginas. É importante que o autor faça um briefing e que dê informações suficientes para que você saiba se terá o conhecimento necessário para aquele trabalho em específico. Aprovados o orçamento, as formas de pagamento e os prazos, ela recebe todos os originais e passa para a leitura da obra. Depois, se reúne com o autor – dependendo do escopo do trabalho, essa reunião leva de uma a seis horas – após, surgem algumas decisões, respostas aos questionamentos, e ela volta ao texto, faz os acertos de acordo com essa reunião e o envia ao autor com as marcações. O texto que chega para uma pessoa leitora crítica não é ainda o texto editado. Depois o texto volta para o autor e ainda retorna ao leitor crítico para checar se está tudo dentro do que foi combinado.

Vamos contextualizar um pouco o mercado.

Segundo Maiara, os projetos que exigem leitura crítica, em geral, são textos literários. Pode ser feito em outros textos como matérias e outros materiais jornalísticos, jogos, artigos acadêmicos, mas a maior parte dessas obras já seguem seus próprios processos de análise crítica. No caso da literatura, estamos vendo um movimento diferente do que existia até pouco tempo atrás, em que havia um portal – dentro do conceito de edição Gatekeeping vinda do jornalismo – com os editores sendo os “porteiros” da publicação, responsáveis por selecionar e por direcionar as vozes da literatura. O texto, quando passava por esses profissionais, já ganhavam um crivo crítico. Os editores, dentro dos objetivos da editora, mudavam o que achassem necessário em prol do produto que buscavam, mantendo uma hierarquia de poder dentro do processo de publicação.

Maiara reitera que a leitura crítica acabou nascendo porque estamos vendo uma diferença no mercado editorial, em que a tecnologia e outras questões econômicas começaram a criar essa mudança de paradigma de quem detém o poder na hora da publicação. Em outras palavras, hoje qualquer pessoa pode publicar e não há mais esse poder nas mãos da editora. O acesso é mais fácil de forma geral. Assim, se abriu um campo para que os autores obtivessem esse crivo de outra maneira. É claro que é importante que exista um procedimento avaliativo de pares, em que você não decida tudo sozinho, porque, afinal, é muito difícil que obras se façam sozinhas. O produto livro depende de várias pessoas. Dentro desse novo contexto, surge a figura dessa pessoa, o leitor crítico, que, em geral, trabalha também como revisor e outras funções.

Vale ressaltar, também, o que a leitura crítica não é. Maiara lembra que este trabalho não é uma revisão final, uma revisão de prova, não busca correções gramaticais, não é uma caça aos erros. O leitor crítico vê o produto de uma forma global e insere no seu trabalho questões que vão desde o entendimento do texto, para qual público o texto se dirige, questões sensíveis que podem ser potencialmente ofensivas, dados – se é um livro que vai passar numa época específica, o leitor crítico deve analisar se as coisas fazem sentido. É um trabalho que acontece antes da revisão gramatical.

Quais são as demandas para o trabalho de leitor crítico?


Todos os autores entrevistados frisaram que existe um novo nicho de mercado, uma nova demanda dentro do trabalho de leitura crítica, a leitura sensível. Conforme as palavras de Kátia, ela funciona da seguinte forma: digamos que você seja um homem branco, hétero, de classe média – logo, encaixa-se naquilo que é considerado padrão –, mas tem o desejo de escrever sobre personagens mais diversos, de criar obras representativas que contemplem outras parcelas da sociedade. Mesmo se você fizer uma boa observação e um estudo cauteloso da minoria que protagonizará seu texto, a sua visão do assunto não se iguala àquela de quem vive determinados preconceitos diariamente. Neste momento, entra o leitor sensível: geralmente alguém pertencente a esse grupo específico, capaz de guiá-lo quanto a detalhes dos quais você talvez não se desse conta sozinho. Nas suas leituras críticas, embora Kátia não faça parte de muitas dessas minorias (é mulher, autista e pansexual, mas não sofre com racismo, homofobia, transfobia etc.), ela sempre tenta, na medida do possível, apontar trechos problemáticos da obra. É um papel necessário, recentemente incorporado à função do leitor crítico.

As demandas para a leitura crítica, segundo Maiara, englobam pessoas que vão publicar suas próprias obras, tanto por investimento próprio ou por financiamento coletivo, além de editoras pequenas que não podem manter uma equipe permanente e buscam pessoas leitoras críticas autônomas para fazer trabalhos específicos. Resumindo, trata-se de uma prestação de serviços em que você fará a análise de um determinado texto.

Dicas para quem deseja trabalhar com leitura crítica


Marcelo lembra que, além do óbvio, que é ler muito, é desejável estudar língua portuguesa e escrita criativa/literatura na mesma proporção. Embora o leitor crítico não seja um revisor, é fundamental que ele tenha domínio linguístico para explicar as alterações propostas ao autor, além de lidar com aspectos de linguagem, tão caros à ficção. A Metamorfose, por exemplo, só tem trabalhado com leitores críticos egressos do Curso de Formação de Escritores.

Kátia recomenda, para quem está iniciando, começar com resenhas. É uma maneira de construir portfólio, e escrevendo boas resenhas, você desenvolve o olhar crítico que a profissão exige. Também é preciso estudar, e muito, todos os elementos que compõem um texto. Saber averiguar as sutilezas, entender as entrelinhas, checar se algo precisa ou não ser dito.

Maiara aconselha a fazer o que todos na área de artes fazem: montar um portfólio. Você precisa trabalhar como leitor crítico para criar um portfólio. Ela levanta uma dúvida que costuma surgir entre seus alunos do curso de revisão, que é: posso cobrar menos para construir portfólios? Maiara não indica, o que ela sugere é que o profissional procure projetos em que o autor não tem condições de pagar, mas que ofereça uma ideia ou uma causa com a qual você tenha vontade de contribuir, até porque o leitor crítico não costuma trabalhar apenas com essa demanda. A segunda dica é entender o mercado. Em qualquer ambiente no qual você vai entrar, é fundamental que você conheça seus pares, autores, leitores críticos, editores, revisores, jornais literários, entidades importantes. Maiara diz que há uma falta interesse por parte de alguns profissionais em participar da categoria, um mercado que se abre hoje por um caminho novo. É importante participar do mercado e da indústria literária. Saraus, encontros, seminários, grupos, tudo isso são oportunidades para continuar aprendendo sempre, mesmo que seja on-line, na nova realidade imposta pela pandemia. Resumindo, entenda que você é parte de uma categoria.

Para finalizar, Marcelo comenta que muitos autores relatam que a leitura crítica se torna um aprendizado muito valioso, especialmente para quem já fez oficinas de escrita e não é mais um iniciante na área. Isso porque os comentários do leitor crítico valerão não apenas para a obra analisada, mas para todos os textos que forem escritos dali em diante.



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Comentários:

Perfeito, parabéns!!!

Mitcheia, Porto Alegre 30/07/2021 - 16:26

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