O triste sorriso
 



Crônicas

O triste sorriso

Luciana Konradt Pereira


Sorrir, verbo irregular. Por definição, rir com um breve movimento da face e dos lábios. Mostrar, para alguém, um sorriso. Demonstrar alegria e contentamento.

Ao longo do dia, todos sorrimos. Alguns, naturalmente, sem qualquer motivo ou propósito. Outros, de modo malicioso, ardiloso e premeditado. Autêntico ou falso, no convívio humano, o sorriso sempre foi uma arma, doce, útil e necessária, tanto para o bem, quanto para o mal. Sorrir podia ser a estratégia sutil para encerrar uma conversa constrangedora. Por outro lado, mostrar os dentes auxiliava a começar um diálogo necessário, a quebrar desconfortantes silêncios. Um bom sorriso ajudava, e muito, a vender quimeras, vestidos e apólices de seguro. Quando sinceros, os felizes sorridentes atraíam outros da mesma espécie, criando os grupos mais animados de qualquer festa.

Se era simplesmente a demonstração de felicidade e contentamento diante da presença de alguém querido ou amado; ou se, por dever de ofício, precisávamos ser simpáticos e proporcionar uma sensação de bem-estar, salvo algumas, prováveis, exceções culturais, lá estava ele: o grande sorriso. O ato de rir suavemente, com um breve movimento dos lábios e da face, podia ou não ser retribuído, mas, via de regra, sempre gerava algum nível de empatia. Gerava comunicação instantânea. Era a grande mágica do sorriso.

Temo que hoje, sorrindo para aparelhos celulares, diante dos cenários mais improváveis; criando fotos que serão publicadas, aos borbotões, nas chamadas redes sociais, tenhamos nos convertido em manequins de uma grande vitrine. Manequins sorridentes e ávidos de um grande público. Narcisos modernos, paralisados diante de um grande lago virtual a refletir nossa bela imagem. Mas ele, o sorriso, embora retratando nosso melhor ângulo ou cativando milhares de seguidores, tenha se tornado oco, solitário e triste, porque lhe falta, simplesmente, a insuperável interação com o outro.


Luciana Konradt Pereira é natural de Pelotas. Cursou Magistério, no Colégio Anglicano Santa Margarida. Formada em Comunicação Social (habilitação em Jornalismo – UCPel), Francês e Direito, pela Universidade Federal de Pelotas. Atualmente, vive e trabalha em Porto Alegre. Apaixonada por arte e literatura, participa do Curso Livre de Formação de Escritores.


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Comentários:

LUCIANA,
breve texto, com profundidade! Trouxe-me inspirações! Obrigada !!

MARINA JACOB, CORONEL FABRICIANO MG 12/01/2021 - 10:32

Gostei muito, transmite exatamente o pensamento de muitas pessoas. Muito bem escrito. Parabéns.

Verena, São Lourenço do Sul 17/12/2020 - 23:06

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