O libelo contra Adão
 



Crônicas

O libelo contra Adão

Marco José Stefani


Pobre de ti, Adão, que nascido adulto, não conhecestes infância nem palmada. Na Capela Sistina, Michelangelo Buonarroti não quis te poupar: ficaste despido para que todos vissem a nudez plena da tua alma franzina.

Seu filho ingrato! Como podes fitar teu pai com tão evidente descaso? Teu olhar é honesto em demostrar o mais puro desdém. Adão, seu mimado. É assim que te vemos aí em cima: poltrão sentado na fortuna herdada do pai. Corpo saudável mas inútil, vítima da preguiça que o transformou na mais óbvia frouxidão.

Teu membro não é viril. Teu braço, pesado demais. O joelho te serve de escora: mal consegues suspender o próprio antebraço, que dirá a mão estendida e seus cinco dedos másculos. Foi preciso que sucumbissem para que só o indicador, miseravelmente, esboçasse o princípio insignificante de uma ereção natimorta.

Adão, perscruta os teus pés! Compare-os aos pés que vestem o corpo do teu pai. São cópias idênticas daqueles que servem a ti.
Que sejam a prova da tua descendência. Que a partir dela, recobres o desejo contra a apatia, a iniciativa contra a preguiça, a humildade contra o orgulho. Como fostes assumir postura tão ignóbil frente àquele que é teu pai?

Filho injusto! O pai, que atravessou mundos, venceu legiões, voou como raio e se espichou até o limite que o corpo permitiu alcançar, foi insuficiente. Os dedos não se tocaram. A medida do teu menor esforço, Adão, é o vão entre as margens do abismo parricida do milagre que nunca ocorreu. Que teria sido se aqueles dedos tivessem se tocado? Que certezas embalam essa tua preguiça invencível, Adão?


Marco José Stefani é advogado. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores.


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