A novidade
 



Contos

A novidade

Rachel Baccarini


Era bem cedo quando K. abriu os olhos e espiou a claridade que entrava pela fresta da janela. Mais um dia igual a todos os outros. Já eram noventa e cinco marcas no calendário da geladeira, e K. havia se acostumado ao passar lento e repetido do tempo. Levantava-se, tomava seu café, assistia ao primeiro jornal da manhã anotando o número dos mortos do dia anterior, molhava suas sempre-vivas, limpava a casa, preparava seu almoço, dormia, acordava, via televisão, lia um pouco à noite, dormia, acordava, levantava-se, tomava seu café, assistia ao primeiro jornal da manhã anotando o número de mortos do dia anterior, molhava suas sempre-vivas, limpava a casa, preparava seu almoço, dormia, acordava. Não havia domingos ou feriados.

K. não falava mais com os amigos e parentes. Todas as vezes que tentou, sentiu-se mais só. Conversas online nunca substituíram sua necessidade de um abraço. Desistiu de sair para as compras também. Tudo o que precisava chegava na porta do seu apartamento uma vez por semana. Acabou se misturando aos objetos do seu ambiente e aprendeu a conviver com eles.

Sempre que olhava para a felicidade do portarretratos sentia inveja, e o trancava dentro do armário por alguns dias. Começou a conversar de igual para igual com o espelho, irritava-se com as reclamações da máquina de lavar e sorria da alegria da chaleira assobiando no fogo.

Os ruídos externos marcavam as horas dos seus dias. Às sete e meia da manhã a vizinha do lado abria sua janela sonoramente, e às oito, saía pela porta rangente para passear com o cachorro, que latia. Às dez horas, a vassoura da faxineira do prédio movimentava-se, chiquechiqueando frenética no hall. Às 4 da tarde, o vizinho da frente descia as escadas assobiando para levar o lixo. Às 9 da noite, K. suportava os gemidos de prazer do casal de cima, e às vinte e duas horas, o silêncio reinava no antigo edifício do centro da cidade. Nem uma alma viva assombrava as caladas noites. A exceção eram as sirenes das ambulâncias que passavam a qualquer hora do dia ou da noite. Isso sim era assustador.

Quando tudo começou, todos acharam que seria o fim do mundo, e o mundo de K. começou quando parecia que era o fim.

Aconteceu bem na hora do assobio. K. notou pela primeira vez aquela pinta esverdeada no seu ombro esquerdo, repousando quietinha na curva descendente para a axila. Uma pinta verde não era de se desprezar, pensou, não conhecia ninguém com uma. Uma novidade enfim para colorir seus sempre mortos dias. Foi o evento da semana! O último grande evento havia ocorrido um mês atrás, quando um passarinho desavisado batera de encontro ao vidro da sua janela e caíra andares abaixo. Por alguns dias, K. imaginou se o bichinho teria se salvado ou não. Mas agora aquela pinta, isso sim era surpreendente!

Nos dias seguintes, tratava a pequena marca esverdeada como se fosse um bebê. Limpava cuidadosamente com algodão embebido em soro fisiológico duas vezes por dia, deixava-a tomar sol por meia hora pela manhã e pingava sempre algumas gotas de água mineral para o caso dela ter sede.

A pinta, com todo esse carinho, foi crescendo e ficando forte, tornando-se um verde luminoso e profundo. K. não cansava de admirá-la.

Certo dia, notou uma pequenina protrusão na pinta, suave e tímida, com um formato alongado e uma ranhura no meio. Parecia um brotinho. Uma maravilha! Os dias de K. tornaram-se vivos de novo, como aquela marca no corpo que se modificava e crescia quanto mais atenção recebia. Pela manhã, os banhos de sol eram acompanhados por suaves músicas clássicas, geralmente as Quatro Estações de Vivaldi. Misturado às gotinhas de água mineral, K. pingava um pouco de mel. Durante a noite, cobria-a com uma gazezinha para que não se machucasse em qualquer movimento brusco, e quando acordava, a primeira coisa que fazia era tirar a gaze e ver se estava tudo bem com Meubenzinho. Sim, agora ela tinha um nome. Assim a pinta foi crescendo e se reproduzindo.

Um mês depois, Meubenzinho tinha vários brotinhos salientes que caíam enfeitando parte do braço de K., como se fosse uma manga de camisa viva e verdejante. Pena que ninguém mais pudesse ver, não podia sair para exibi-la nas praças, para seus amigos, não podia levá-la a um cinema ou à praia.

Os dias que se seguiram continuaram cheios de novidades. K. devotava-se totalmente a sua companheira que crescia cada vez mais. Os brotos multiplicavam-se, descendo por seu tronco e membros. Alguns chegavam até os pés, o que lhe trazia uma felicidade nunca antes sentida. Não se irritava mais com as reclamações da máquina de lavar, se alegrava com a felicidade do portarretratos e nem escutava os ruídos que vinham de fora. Só tinha olhos e ouvidos para Meubenzinho.

Os vizinhos perceberam que alguma coisa diferente acontecia no 303. Não viam movimento ali há meses. As correspondências acumulavam-se na caixa de correio. Não chegavam mais compras para K. Mas, todos os dias pela manhã, podia-se ouvir uma suave música clássica vindo do apartamento. Desta forma, ninguém se preocupou, ninguém se incomodou. Na verdade, desde então o ambiente no prédio estava melhor, o ar estava mais puro e as pessoas mais alegres e tolerantes. Parecia que o medo havia perdido seu lugar ali.

O tempo passava, e aquela maravilha continuava crescendo. K. não precisava mais comer, vivia dos banhos de sol e do suco esverdeado que passava por dentro do seu novo corpo, dos pés até a cabeça, transbordando de vida e energia, chegando até as centenas de extremidades que variavam de um verde mais claro a um verde escuro. A dupla já havia se tornado um único ser.

Certa manhã, K. acordou e sentiu as pernas unidas, transformadas num forte tronco que atravessava sua cama, rompia o piso e adentrava as raízes no cimento e além, procurando terra. Agora possuía muitos braços que saíam felizes para fora das janelas do apartamento, cheios de folhas felizes, balançando com o movimento da brisa. Num deles, um passarinho preparava seu ninho, feliz.

As poucas pessoas que se arriscavam a andar pelas ruas naqueles dias olhavam para cima e se maravilhavam. Não entendiam como uma árvore tão linda poderia ter crescido dentro daquele edifício antigo do centro da cidade.


Rachel Baccarini é médica e escritora, mora em Belo Horizonte, trabalha na organização Médicos sem Fronteiras desde 2017. Começou a escrever contos e crônicas em 2017 para seu blog www.segredosdaostra.blogspot.com. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores.


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