Dica de Escrita

Não comece escrevendo trilogias – pense em um livro de cada vez

Christian David


Já conversei com vários escritores e pessoas que querem escrever livros, alguns escritores iniciantes, que querem fazer aqueles livros muito legais, geralmente de fantasia ou terror ou até ficção científica, e que buscam escrever trilogias ou até sagas maiores do que 3 livros. Isso não tem problema nenhum. Tem muita gente que gosta de fazer e tem vários livros de sucesso que fizeram isso, mas eu só queria fazer uma ressalva pelo seguinte: é bem difícil publicar um livro que vai ter uma continuação. Ou, pelo menos, que precisa de uma continuação pra se completar. As editoras, na maior parte das vezes, querem livros que possam ser publicados sozinhos sem nenhuma obrigação de continuidade. Por vários motivos: um, por questão de mercado. O mercado pode não aceitar bem aquele teu primeiro livro, pode não ter uma repercussão das melhores e então a editora não vai se sentir obrigada a publicar mais nenhum, se o livro é sozinho, mas às vezes é uma continuação, mesmo os poucos leitores vão perturbar a vida inteira aquela editora pra ela fazer a continuação daqueles livros.

Outra coisa é que tem um custo alto. A editora, se ela vai publicar uma trilogia, ela já está contratada contigo pra três livros e nem sempre ela tem fôlego pra tudo isso. Dependendo da editora, ela pode, às vezes, demorar bastante pra publicar um segundo livro, uma continuação, ou nunca publicar por questões bem práticas e financeiras.

E também, a trilogia, quando a gente pensa em escrever, na ideia, no planejamento é muito legal, mas, na prática, muitas vezes, nós mesmos não temos fôlego pra escrever isso com a rapidez que a gente gostaria ou até de algum dia escrever uma continuação porque dá trabalho escrever um livro e geralmente, quando são trilogias, são livros longos. Não deu pra colocar dois livros no mesmo porque justamente eram dois livros grandes, então a gente acaba fazendo separado, mas isso precisa de um fôlego grande e nem sempre nossa vida vai caminhar nessa direção. Então, é um risco. Se tu quer te lançar como escritor, a minha sugestão é que tu comece escrevendo textos menores. Novelas, pode ser até um romance, ou um livro de contos, mas que não tenha a necessidade de que esse livro tenha uma continuação imediata ou que a editora se sinta na obrigação de continuar publicando.

Como a gente pode, então, se eu tenho uma ideia muito grande, que vai requerer muitos livros ou uma trilogia, como é que eu posso fazer, então? Existem possibilidades. Uma delas é um defeito que às vezes a gente cai quando quer uma trilogia, que é assim: a gente quer criar um universo, a gente quer criar um mundo, quer criar uma saga onde tu vai descrever tudo o que está acontecendo, como é que são as leis que regem aquele mundo, como é que são os personagens, os povos, as terras. E essa descrição, às vezes longa demais, se ela não é bem feita, e às vezes quando a gente é iniciante a gente não consegue fazer bem, a gente aprende com o tempo, se ela não é bem feita, ela fica bastante entediante pro leitor. E talvez a gente não venda o segundo livro porque ele já não vai curtir ler aquele tanto de descrição e, de novo, ou nem acabar o primeiro livro porque não aguentou de tanta descrição e falta de ação no livro. “Ah, mas o ”Senhor dos Anéis” tem muito disso”. Bom, o “Senhor dos Anéis” é uma situação a parte, uma outra época, é um livro de grande qualidade, Tolkien teve seus motivos, suas ideias pra escrever daquela maneira, mas na época de hoje escrever um texto longo com mais de um volume é sempre um risco. Mas é aquilo que eu falei, não existe uma fórmula mágica e nem uma obrigatoriedade de cada um fazer o que eu estou dizendo. Se é teu desejo escrever, bom, encara, mas eu só queria te alertar, então, desses possíveis problemas, dessas possíveis situações, que escrever textos que não acabam no livro um podem gerar, pra editora, pra ti e, às vezes, pros leitores.

Como regra, pra que isso não aconteça, eu sugiro que a gente tente fazer menos descrições nos primeiros livros, escrever o que é essencial para o texto, sem querer ter aquele projeto de criação de universo, criação de mundos, pra que o nosso texto possa ter um desfecho com um volume razoável e que a gente consiga, então, no final desse texto, finalizar aquela história talvez deixando, se tu tem interesse em escrever um segundo na mesma temática, no mesmo universo, deixando talvez uma pontinha solta ali que possa vir a ser alguma coisa. Eu costumo fazer isso nos meus textos, eu tenho algumas novelas, alguns textos maiores do que novelas, tenho um, pelo menos, um romance, e alguns contos, onde eu deixo uma coisa pendente que pode ter finalizado ou não, a gente fica na dúvida. E se um dia eu quiser voltar e continuar escrevendo, eu tenho toda a liberdade, mas não é necessário porque o texto é fechado, é um texto que acaba.


transcrição de trecho de aula de Christian David para a Oficina Escrevendo para Jovens


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