Crônicas

Desabafo em Manifesto

Lídia Rocha de Macedo


Um acontecimento de ontem me transportou para quase quarenta anos atrás. Eu tinha vinte anos e iniciava minha primeira experiência de estágio, que viria a se desenvolver numa unidade do antigo Hospital São Pedro. Surpreendentemente, não foi a proximidade com a loucura o que mais me assustou, mas um lado bem mais obscuro da alma humana que se revelou naqueles que deveriam zelar pela saúde. Relatarei uma situação que servirá para clarear este ponto. Peço desculpas antecipadamente pelas emoções que irei provocar.

Era um galpão enorme unido a um pequeno anexo, onde funcionava o posto de enfermagem, uma sala de reuniões e dois consultórios. O galpão tinha um telhado de zinco, pequenas janelas no alto e não tinha divisórias. Duzentas internas dormiam em beliches distribuídos de um lado e de outro das mesas do refeitório, que ficavam no centro.

Fazia muito calor naquele mês de janeiro, o que acentuava todos os odores fétidos que reinavam absolutos no local. A nobre missão das jovens estagiárias de Psicologia era motivar as internas a participar de atividades como desenho e colagem, realizadas nas mesas do refeitório. Para tal, elas tinham de deixar o pátio fresquinho e permanecer conosco no galpão quente e fedorento. Naturalmente, a adesão era baixa.

Inconformada, pensei em uma solução. Mobilizei meus colegas para angariar materiais e dinheiro para construção de um caramanchão, que seria coberto com trepadeiras, como maracujá. Todos toparam e rapidamente conseguimos a doação dos materiais necessários. Então, na primeira oportunidade de reunião de equipe, apresentei nosso plano e os recursos que tínhamos conseguido para executá-lo. Fui rispidamente censurada pela pessoa da chefia, que engavetou o projeto. Seu argumento era que não podíamos transformar a unidade em algo melhor do que a casa delas, pois isto promoveria o hospitalismo (quando o paciente faz esforços para se manter hospitalizado).

Experiências deste tipo continuam a me causar impacto. Para mim, é incompreensível que meu papel de cidadã fique restrito ao de espectadora diante de problemas que afetam a todos. Para exemplificar este ponto, frequento uma praça há quatro anos. Neste período, já acompanhei passivamente a morte lenta de três árvores, sem contar as que estão agonizando devido à infestação de erva-de-passarinho. Toda vez que vejo pessoas uniformizadas realizando alguma tarefa na praça, pergunto sobre o cuidado das árvores. A resposta é sempre que esta não é uma tarefa deles. Recentemente, meu pai foi multado por cuidar de uma árvore, para evitar que ela caísse, em frente à sua casa.

Ontem meu marido foi afastado da direção do HPS. Coincidentemente, nesta mesma semana a Campanha Pró-HPS ganhou destaque na mídia. Dentro de um mês ocorrerá um jantar beneficente na Associação Leopoldina Juvenil, onde também ocorrerá um leilão de obras doadas por 32 artistas reconhecidos de nossa sociedade. Deu-se visibilidade ao problema do HPS e se apresentou uma solução que envolve todos nós.

Lídia Suzana Rocha de Macedo, professora colaboradora do Mestrado Profissional em Saúde Mental e Transtornos Aditivos do HCPA/UFRGS; Psicóloga Clínica e Terapeuta de Família; Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Psicologia pela UFRGS.

 

 

 

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