Contos

A velha sábia e o Halloween

Sandra Eliane Radin


Quando criança, eu escutava histórias, contadas pelos antigos, de uma velha anciã curandeira que habitava a floresta, morava numa frondosa figueira, conversava com as plantas e estava sempre rodeada pelos animais, amigos das noites frias e solitárias. Costumava vir algumas vezes até a pequena cidade onde eu morava para atender algum doente ou buscar suprimentos para si.

Em determinada época do ano, diziam escutar um canto acompanhado por batidas de um tambor que perpassava as árvores e chegava até eles como um grito desafiador; depois disto, passavam diversas luas sem vê-la, o que os deixava preocupados.

Estas histórias sempre me intrigaram e povoaram meu imaginário da infância até a vida adulta, desafiando minha curiosidade. Queria saber mais sobre aquela mulher, eram fascinantes as histórias que povoavam a sua existência naquela floresta.

Dentro de mim sabia que ela, a velha sábia xamã, fazia parte de mim e eu dela, e que cedo ou tarde estaríamos frente a frente.

Era outubro de 1970 e eu me encontrava em um momento de muitos desafios e escolhas a serem feitas. Havia sofrido decepções e começava a sentir o coração inquieto, a alma vagando e eu me refugiando cada vez mais nas minhas cavernas internas.

A sensação do vazio existencial se agigantava dentro de mim e, no silêncio da noite, chorava baixinho e sussurrava um pedido de ajuda.

Naquela noite, depois de meu canto-lamento, acabei dormindo, e no sonho via a anciã de cabelos longos e grisalhos, sentada aos pés de uma figueira a me estender a mão e a me chamar com o olhar negro e profundo.

No dia seguinte acordei com um forte desejo de sair da minha zona de conforto e ir ao encontro dela naquela cidade e floresta de minha infância onde em sonho, havia dito que me encontraria.

Era dia 30 de outubro, início da lua nova, véspera do Halloween. O feriado dos mortos, dia dois de novembro, cairia na segunda-feira, ótima oportunidade para eu viajar, já que voltaria a trabalhar só na terça-feira.

Reuni algumas poucas peças de roupas e itens de higiene pessoal, fechei a casa apressadamente e tomei a estrada rumo ao seu encontro.

Chegando lá, fui até uma pousada simples, porém acolhedora, onde fui recebida por uma bela jovem, Hecate, de longos cabelos dourados e belos olhos azuis turquesa, com longos cílios pretos. Sorriu de forma enigmática assim que me viu, e sem perguntas me alcançou a chave do quarto ao tempo que me dizia a muito me esperar. Serviu um chá de boas-vindas. Depois disto, tirei o resto do dia para caminhar e tentar me reconectar com as lembranças do passado e da minha infância.

Ao cair da tarde, quando o sol deu lugar à lua, voltei à pousada e lá encontrei Hecate tecendo uma linda veste branca. Ao me avistar, alegremente me comunicou que eu também deveria tecer a veste a ser usada no outro dia no ritual de shamhain.

Contou-me que esta é uma festa pagã para homenagear nossos ancestrais e falar com os mortos, ocorrendo sempre no dia 31 de outubro.

Sem me dar tempo para retrucar, me passou o tear, ordenando que eu começasse a tecer a minha veste, o meu destino. Me disse ainda que toda mulher deve ter seu próprio tear para poder tecer a sua teia-vida, sua própria realidade e história. Assim fazendo estará ativando as experiências de vida, tendo insights de seus poderes criativos e de sua capacidade de transformação e cura.

Animada, disse que a experiência que viveria me proporcionaria uma nova perspectiva que se integraria em mim, fazendo com que eu me desapegasse do que estava obsoleto, dando espaço para o novo ser incorporado, me tornando um ser mais complexo e enriquecido, co-autora da grande teia da vida humana.

Exausta, horas depois de começar a tecer minha túnica e após um dia cheio de emoções e novas experiências, dei uma última olhada orgulhosa para o que acabara de tecer e deitei com a certeza de uma boa noite de sono.

Pela manhã, era como se eu estivesse passando por um ritual de iniciação. Passei o dia reflexiva, minha alma me pedia que assim eu permanecesse.

Naquela noite, dia 31, junto com Hecate e vestindo nossas vestes brancas, seguimos um caminho iluminado por velas dentro de abóboras até uma clareira no meio da floresta, coberta pela névoa, onde mulheres igualmente vestidas de branco dançavam em volta de uma fogueira com salamandras dançantes, enquanto entoavam um cântico de invocação dos ancestrais, seguida de um cântico de saudação a Mãe Terra.

A cena era emocionante e senti ser ali o meu lugar. As mulheres assim que nos viram abriram a roda para nos unirmos a elas e, ao som do tambor, seguimos dançando e cantando pela noite adentro, aquecidas pelo calor da fogueira e pela egrégora formada pelas mulheres ali presentes ou não.

Envolvida pela névoa que torna visível o invisível, vi Hecate, a jovem de cabelos dourados, transformar-se, tornando visível sua outra face, a da velha anciã, curandeira e sábia relacionada ao outono e inverno, ao Samhain.

Ao reconhecê-la, sentei-me junto a ela na figueira e fui convidada a navegar na totalidade de minhas partes, afrontar a adversidade, rir dela, superar minhas perdas, descartar mágoas e ressentimento, deixar fluir o perdão e curar feridas do passado, me reconectando com minha ancestralidade, comigo mesma, integrando todas as minhas faces.

Quando a lua começou a se despedir de nós e saudar o sol, senti que era hora de dar seguimento à minha jornada.

Ela se despediu de mim dizendo: “Adeus! Você não vai se lembrar, mas nos veremos em uma roda de mulheres no próximo 31 de outubro”.


***

Sandra Eliane Radin é mestre em Educação, possuiu Formação em Dinãmica dos Grupos e é uma estudiosa da Psicologia Analítica e da Mitologia Grega. Nasceu em Passo Fundo e reside em Porto Alegre. Participou do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Muito bom mergulhar no passado com a perspectiva do que está por vir, que pode ser muito melhor... Continua a te aventurar na escrita, fazes bem para ti e para teus leitores!

Inajá Oliveira de Borba, Porto Alegre, RS 15/11/2019 - 14:18

Envolvente, misterioso, assustador sem muito assustar...A história vai se enovelando nas fímbrias da noite e termina num baita gancho que pede continuação

Evelyse Borba, Porto Alegre/ RS 13/11/2019 - 18:20

Sandra Eliane Radin... lindo e terno conto, cenário rico, bem descrito e ecológico, faz -nos andar por ele na companhia agradável dos belos olhos azuis turquesa que são os seus... fecha muito bem com a mensagem do Evangelho de amor, perdão e libertação. Rico, criativo e inteligente

Angélica Vieira Donald Marinho, Salvador-Bahia 02/11/2019 - 19:22

Foi muito bom mergulhar no imaginário criativo e sensível da tua narrativa, tão bem escrita. Parabéns!

Beatriz Unfer, Santa Maria/RS 02/11/2019 - 11:07

Parabéns querida!Escreva muito!!Seu texto é lindo,suave e envolvente.
Claro que lembrei de nossa amada avó Maria que do céu vai benzer e alegrar-se com você...Bjs

Sílvia M.M.Varella, São Bernardo do Campo-sp 01/11/2019 - 19:53

Sandra, tua crônica prende a atenção e mexe com o imaginário. Essa é a missão do escritor ,propiciar ao leitor se envolver com a narrativa, transportando-o para outra época, crença ou cultura.
Parabéns, estás no caminho certo e a família está muito bem representada.

sonia eliana, Porto Alegre 31/10/2019 - 22:07

Sandra, muito envolvente tua narrativa. O texto me levou para meus labintos estradas
Parabéns, está muito muito bom &128536;&128149;&128149;&128149;&128149;

Neidí Schneider, SINES Portugal 31/10/2019 - 19:08

Adorei amiga! Ao mesmo tempo reflexivo e revigorante. Uma viagem ao interior visitando a alma de forma reflexiva, passando pelo lúdico e chegando às muitas lembranças de forma revigorante. Parabéns!!!!!

Ana Marcante Rivas, Charqueadas/RS 31/10/2019 - 09:24

Adorei amiga! Ao mesmo tempo reflexivo e revigorante. Uma viagem ao interior visitando a alma de forma reflexiva, passando pelo lúdico e chegando às muitas lembranças de forma revigorante. Parabéns!!!!!

Ana Marcante Rivas, Charqueadas/RS 31/10/2019 - 09:24

Adorei amiga! Ao mesmo tempo reflexivo e revigorante. Uma viagem ao interior visitando a alma de forma reflexiva, passando pelo lúdico e chegando às muitas lembranças de forma revigorante. Parabéns!!!!!

Ana Marcante Rivas, Charqueadas/RS 31/10/2019 - 09:23

Parabéns Sandra, entendi perfeitamente os seus sentimentos. Hoje sou praticante de Reik, conheço o Xamanismo é a Wicca.
Obrigado pelo texto.

André Luiz de Aragão, Aracaju - Sergipe 31/10/2019 - 09:17

Parabéns Sandra, entendi perfeitamente os seus sentimentos. Hoje sou praticante de Reik, conheço o Xamanismo é a Wicca.
Obrigado pelo texto.

André Luiz de Aragão, Aracaju - Sergipe 31/10/2019 - 09:17

Amiga adorei, por alguns instantes, entrar na roda,dançar, cantar e compartilhar ao calor que emanava da fogueira a forte energia daquelas mulheres. Parabéns Sandra!

Eneida Chazan, Porto Alegre/RS 30/10/2019 - 23:27

Parabens , muito lindo, lindo mesmo, imediatamente me remeteu para Alberto Caeiro, em"O Guardador de Rebanhos - Poema VIII", "Vi Jesus Cristo descer a Terra"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Mais uma vez parabéns, exelente conto

Victor Rivas Filho, Charqueadas/RS 30/10/2019 - 23:00

O imaginário sempre povoou a mente das pessoas, até porque muitas vezes as mensagens balizadoras da vida serem contadas a partir das lendas e dos mitos. Por isso essa dimensão pode ir além do lúdico...
Parabéns

José Carlos Radin, Chapecó 30/10/2019 - 22:38

Lindas palavras que nos conduzem a reflexão...lembranças ....uma amada benzedeira que vivia sob um Umbu...gratidão Sandra,querida....vou fazer a minha " viagem"....sucesso sempre....escreva muito....

Saly Mara M Varella, Porto Ferreira/SP 30/10/2019 - 18:51

Querida Sandra! Agradável e suave leitura que nos reporta ao passado, e ao presente também, nos convidando a reflexão sobre a existência e o mergulho tão necessário a nossa alma. Muito obrigada e um grande abraço! Felicidades querida!

Vera M. Knierim, Santa Maria, RS 30/10/2019 - 16:57

Cara amiga Sandra

És uma escritora nata, através da tua escrita, consegues fazer nos transportarmos no imaginário, com fragmento de uma realidade, imperceptível por muitos.
Parabéns e que possas sempre nos contemplas com esses teus feitos.
Namastê
Paulo Fernandes

Paulo R S Fernandes, Capao Da Canoa 30/10/2019 - 10:59

Querida Sandra: que rica partilha. Teu conto me fez viajar longe, uma delícia. Parabéns!!! Gratidão

Gabriela, Porto Alegre/ RS 30/10/2019 - 10:21

Sandra, irmã de jornada!
Que belo, reflexivo e convidativo conto.
Revivi nossa " Caminhada de Conexão ao Feminino!!!
Shamain!!!!
Um beijo!!

Suzana Osório, Porto Alegre 29/10/2019 - 16:55

Parabéns minha amada irmã , muito bom mesmo , sucesso . Bjs

Silas Angelo Radin, Porto Alegre 29/10/2019 - 15:11

Bom dia Sandra! Li e me lembrei de todas as rezadeiras que conheci na minha infância, As que benziam com arruda, a que fazia merengues, em um forno de fogão de barro muito limpo com vassora de alecrim, das que recomendavam chá e até de ciganas curandeiras que vinham de tempos em tempos com seus muitos vestidos coloridos e muita música alegre nas barracas de lona.
Obrigada por este momento de reflexão.

Zélia Suzana Pereira Machado, Porto Alegre/RS 29/10/2019 - 11:55

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