Contos

O cemitério

Gilmar Caldas Peres


Naquele dia, o Pato reapareceu. Odiava esse apelido, mas não adiantava, ficou conhecido assim. Estudou conosco por um tempo, depois mudou bastante. As coisas não andavam bem na família dele, sob nenhum aspecto, e se tornou um jovem revoltado. Mas nós ainda nutríamos carinho. Estávamos sentados num gramado declinante, pegando sol num parque. O Toni e a Bel se beijavam para variar, enquanto eu e a Su estávamos distantes por algum motivo. Ele chegou correndo por trás, deu um salto por cima de nós, gritando.

- Ah, vocês se borraram, né? – falou rindo e nos apontando o indicador direito, empinando o corpo para trás. Em seguida, veio em nossa direção e nos cumprimentou. Uns amigos estranhos que estavam com ele foram embora. Apenas eu os percebi.

Nutria uma queda pela Bel desde criança, irritando o Toni, mas logo voltavam às boas. Então, ele nos convidou para uma aventura à noite, seria surpresa de Halloween. Adorava essas coisas, especialmente filmes de terror. Como não tínhamos nada marcado, aceitamos.

O Pato nos levou para um cemitério. Era noite fechada, esfriou um pouco e um vento prenunciava uma virada no tempo. Em seguida, começou a relampear, com trovoadas estrondosas. Ele fez todo mundo descer do carro, falando sem parar e o trancou. Estávamos na rua lateral. Pelo jeito, costumava frequentá-lo. Sabia como entrar e sair escondido. O Toni, para não se sentir inferiorizado, entrou no clima, puxou a Bel e o seguiram. Eu não sabia o que fazer, mas ficar naquela rua deserta, escura, no lado de fora do carro seria mais perigoso. A Su segurava minha mão com toda a força. Eu sentia o suor e o tremor dela.

Ficamos algum tempo parados, até que um relâmpago denunciou o casalzinho se beijando entre dois túmulos. Quando chegamos, começaram a rir alto e eu pedi para fazerem silêncio em respeito. O Pato desapareceu. Ficamos ali parados. A Su com medo, a Bel com frio e o Toni sendo o macho alfa. Depois, sentimos um cheiro forte de maconha. Em seguida chegou o Pato, exalando fumaça, tossindo e nos oferecendo. O Toni aceitou, a Bel também. Eu olhei para a Su e ela franziu a testa. O Pato riu, mas não forçou. Ficamos ali um tempo, até que ouvimos uns barulhos.

- Pato, para de sacanagem. Eu quero ir embora! Eu não gosto dessas brincadeiras –falou forte a Bel com apoio imediato da Su.

Ele disse que não estava fazendo nada e discutiram. O Toni entrou na briga e se empurraram, eu me meti entre eles. O Pato teve um ataque de fúria e depredou algumas sepulturas. Chorou e gritou coisas absurdas. Praguejando até Deus. O Toni recuou um pouco, percebendo que não conseguiria encará-lo.

A tempestade chegou como se fosse uma cachoeira, jogando uma tromba d’água sobre nós. Quando o Pato se acalmou um pouco, pediu para fazermos silêncio, com uma fisionomia assustada. Ficamos tentando nos proteger num daqueles mausoléus fedidos. O barulho aumentou e ele gritou “Vamos embora daqui, rápido”. E saímos correndo esbaforidos. A Su caiu e eu parei para ajudá-la. Quando olhei para trás, aqueles amigos mal encarados vinham em nossa direção. E não era coisa boa. Pude sentir. Eram os mesmos do parque. Apenas eu os vi novamente. Quando perguntei quem eram, eles me chamaram de louco porque não havia ninguém. Fui o último a pular o muro e os vi bem de perto. Fiquei arrepiado.

Entramos no carro muito agitados. O Pato limpou o rosto molhado pela chuva e por algumas lágrimas. Saiu cantando pneus. Passou direto por duas esquinas. A Su implorou para ir mais devagar, mas na terceira, um caminhão pegou a nossa lateral e nos jogou para longe. Mais uma vez, os amigos do Pato surgiram, tiraram-no das ferragens e o levaram. O Toni e a Bel foram para outro caminho, juntos. A Su chorava e segurava firme a minha mão, senti o gosto de sangue e um filete escorreu da minha boca. Não conseguia deixá-la, mas uma voz amiga me disse: “Venha, ainda não é a hora dela”. Foi quando senti uma dor enorme no peito e a deixei ali.

Agora, depois de muito tempo, estou voltando para buscá-la, mais uma vez num Halloween.


***

Gilmar Caldas Peres é Contador, Compositor e Escritor. Seu contato inicial com a escrita criativa remonta a adolescência, quando começou a compor. Depois, passou a escrever Narrativas Longas e Contos. É Autor de "As Gauchadas de João Farroupilha" lançado na Feira do Livro de Porto Alegre de 2018. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Muito bom, de arrepiar.

Liliane, RS 31/10/2019 - 21:09

Muito bom! Gostei!

Anete, RS 28/10/2019 - 21:27

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