Contos

Um presente nascerá no meu quintal

Orlando Merino


A calmaria das quinze horas havia se instalado. O zunido da televisão na casa de dona Hilária, a vizinha do lado, fazia vibrar as paredes de casa. Em um complexo de moradias geminadas, encostar o ouvido ou a mão das medianeiras era o bastante para imaginar a rajada de decibéis liberada em uma acomodação semelhante à minha. Pois bem, muito embora a trama da novela me provocasse, Marjorie e eu tínhamos a inexorável missão de escrever duas cartas cada um para somarmos à corrente de solidariedade “Apadrinhe um Coração”. Naquela tarde de outubro estava tudo decidido: os dois irmãos seríamos amanuenses, pouco importava se no dia seguinte mudássemos para a profissão de motorista de ônibus, padeiro, frentista, qualquer outra ou todas... Faríamos o que nos desse na telha. Portanto, arredamo-nos do intuito costumeiro de acompanhar a telenovela de dona Hilária, para, ao invés disso, acudirmos ao chamado que emergia dos fundos de casa, do embalo da rede de balanço. Era a avó Delfina.

O quintal derradeiro era todo de chão batido, propositado para nossas brincadeiras. Escassas gramíneas dentro de um retângulo de sessenta metros quadrados dividiam o espaço apenas com um velho ipê roxo e dois abacateiros ainda jovens e sem frutos, semeados em paralelo, a cujos troncos se segurava a rede da avó.

Assim, corremos para perto dela, desgovernados. Já no limiar que separa o quintal das dependências de casa, pulamos um, dois, três, quatro e cinco no compasso de amarelinha. Sem mais delongas, avistamos a avó envolvida no arco-íris mais esdrúxulo, por suas cores invertidas e ainda, de barriga para o chão.

Marjorie foi a primeira. Escorou-se do lado direito. Abaixei-me de permeio à rede e um dos abacateiros para eclodir pela esquerda da avó. O embalo reiniciou tímido, quase surdo. Olhamos para o céu desanuviado aguardando o voo de pandorgas. Com sorte, poderíamos presenciar o desabroche da laranjeira que se ergue do jardim de dona Hilária, uma flor de anjinho flutuando, ou até mesmo, a soltura de um balão a hélio, vindo de algures. Nos braços da avó Delfina, sentimo-nos mornos, balançados no macio colo de uma pomba, para logo entoarmos a cantilena: “Una, duna, tena, catena(...)”. A deixa no canto possibilitou que a avó cochilasse - de faz de conta- e que pudesse acompanhar cada intervenção nossa, enquanto fingia ter sucumbido ao sono. De repente, para nosso espanto, esbugalhou os olhos e disse:

- Vão terminar as cartas, para que amanhã possa levá-las ao correio.

E mais uma vez, ei-nos lá sentados à sombra do ipê, no chão batido para concluir nossas cartas. Sabíamos que uma delas versava sobre a doação em dinheiro, ao tempo que a outra, pedia um presente para o amanuense. Sendo assim, espalhamos canetas coloridas e lápis de cor em nossa volta. Marjorie escreveu o nome de seu presente, grafou seu nome na carta e o endereço residencial, dobrou o papel até reduzi-lo a um quadrado e o pôs dentro do envelope. Então começamos a conversar quando ela questionou para mim:

- Já envelopou as duas cartas?

- Não, ainda não.

- Para dar sorte, bota uma cédula de cinco colombos em uma das cartas, pois um coração não vale menos de cinco.

- Sim, irmã. Sei que um coração novinho não tem preço. E tu, que presente pediu?

- Eu, uma boneca de pano; já certa pessoa que não quero dizer o nome, mas que estou olhando, prefere não me mostrar sua carta...

No instante que coloquei o dinheiro com uma delas, fechei os envelopes e saí ao encontro da avó sem pegar as da Marjorie. Ela entregou em seguida as suas e mandou-se para dentro de casa atrás de mim. A avó recolheu a rede e entrou também já com todas as cartas na mão, deixando-as em uma gaveta de sua penteadeira. Às primeiras horas da manhã, levou a correspondência até o correio. Eu, bem que devia ter prestado mais atenção, pois tomado pelo ímpeto da próxima brincadeira, havia encaminhado uma doação e um não-presente. A chuva da tarde seguinte revelou-me que o presente não resultaria da solidariedade. Quem sabe nasceria um presente no meu quintal?


***

Nascido em San Salvador, em 15 de maio de 1981 na República de El Salvador, é Mestre em Direito pela UFRGS e Licenciado em Letras Portugues e respectiva literatura pelo Centro Universitário- UNIASSELVI. Reside em Porto Alegre desde 2010. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Gostei, Orlando!

Rubem Penz, Porto Alegre 08/10/2019 - 14:59

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