Contos

Vinte minutos

Astúria Vasconcelos


Com a semana lotada, conseguiu vinte minutos para ir ao supermercado, no início da noite de sexta, no fim de semana do dia dos pais. Teve dificuldade para encontrar uma vaga que não fosse no fim do mundo. Para conseguir um carrinho de andar duplo, dos pequenos, esboçou rosnar a uma mulher com olheiras iguais às suas.

Em frente a uma pilha de pepinos, enxergou a fila do pão, maior que a de um show de rock internacional, porém com gente que não sorria nem estava com sua turma de amigos. Desistiu de encarar, foi aos pães de sanduíche industrializados, enriquecidos com ferro e zero por cento de adição dessas gorduras que matam.

Passou reto pelo freezer de bebidas geladas e desviou perigosamente dos que portavam sacos de carvão e bandejas de carne. Tomou o rumo oposto aos carrinhos com bebês e suas mães jovens, com a pele e a cintura intacta, e seus pais igualmente lindos, de barba estilosa e desenhada, plantados no meio do corredor, com todo o tempo do mundo. Fingiu não conhecer a colega de trabalho, pois além do assunto infame, não podia atrasar.

O pit stop final, no corredor de guloseimas, foi o que a intrigou. Duas funcionárias contavam a vida uma à outra, a revelia da urgência dos clientes e do patrão. Tentou alcançar a bolacha preferida do filho, com recheio de chocolate, mas o carrinho de abastecimento onde as duas se apoiavam, sorridentes, estava estacionado em frente. Empurrou, pediu ajuda à funcionária, que não a ouviu, ocupada relatando o novo amor.

- Ele me ajuda a criar, busca na escolinha, dá banho, brinca com ele, meu filho até chama de pai.

- Que bacana, tem que ser assim mesmo, afinal pai é quem cria, né.

Ficou com inveja daquelas duas, primeiro por estarem calmas no olho do furacão. Segundo, por uma delas ter um bom companheiro, algo que ela própria não conseguia por mais que tentasse. Sem refletir, invadiu a conversa:

- Se o pai é quem cria, então geralmente o pai é a mãe.

Recebeu o sorriso cúmplice das funcionárias e foi-se, decidida, em prol da dieta dos filhos, sem o tal biscoito, para a fila do caixa. Pois se o pai é a mãe, e se a mãe tem que ser também o pai, acabou-se hoje mesmo o lanche com bolacha recheada, nada saudável e fora dos limites do seu orçamento doméstico de mãe solo. Foi a única a sorrir durante a demora da fila, seu dia dos pães (pai+mãe) seria fenomenal.


***

Astúria Vasconcelos é formada em Arte pela UFRGS, atuou como fotógrafa e realizou exposições, atualmente leciona para adolescentes; publicou crônicas e o ebook "Contos de Foda", disponível na Amazon. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Texto adorável! Realidade com um toque de humor.

Geneci Duarte, Imbé RS 08/11/2019 - 09:41

Prezada Astúria!

Muito bom seu texto. Com uma

pitada de humor, expressaste a

realidade de tantas mães brasi

leiras que, sozinhas criam e

educam seus filhos. É a força

da mulher e sua capacidade

de superação presentes nos

lares brasileiros, em nossa

sociedade tão desigual, onde

a mulher tem dupla ou tripla

jornada e ainda assim, não

é respeitada. Parabéns!

Maria Theresinha Gonçalves Mattos, Florianópolis/Sc 08/09/2019 - 21:08

Gostei amiga. Parabéns!

Clarimundo Rohrig, Porto Alegre / RS 13/08/2019 - 12:52

Descrições que desnudam uma dura realidade vivida com tenacidade e afeto.

Leandro Simões Gonçalves, Porto Alegre 10/08/2019 - 18:18

Alegria, amor e realidade no texto. Completo.

Fabrício Lopes, Viamão 10/08/2019 - 15:54

Que texto bem realista. Parabéns, Asturia. A gente se diverte, mas ao mesmo tempo reflete.

Vera Lucia Schuch, Porto Alegre/RS 10/08/2019 - 14:12

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