Contos

Um Dia dos Pais especial

Luis Alberto Saavedra


A campainha tocou e ele foi se arrastando até a porta. A prótese da cabeça do fêmur era recente e doía um pouco. A campainha tocou novamente, com insistência. Ele então gritou:

- Já vai ! Já vai! Estou chegando!

Quando abriu a porta, era uma bela jovem. Calculou em torno de 25 anos. Ficou sem palavras. Lembrava-lhe alguém do seu passado de glórias. Mas afastou a ideia maluca. Não poderia ser ela, era muito nova.

- Sim, moça? Qual o carnê que eu não paguei? - falou tentando ser engraçado.

Ela irradiava uma luz muito forte, com um sorriso franco mostrava todos os dentes. A casa escura se iluminou. Novamente lembrou-lhe alguém do passado. Afugentou o pensamento recriminando-se por estar ficando velho e tendo visões.

Ela entrou sem pedir licença. Com passo firme e determinado, transpirava confiança e foi logo perguntando:

- O senhor é o Otávio? Otávio Mangabeira?

- Sim. Por quê?

- Lembras de Graziela Morais? - emendou a pergunta de supetão.

- Como poderia esquecer? Eu a conheci na década de noventa, no Bar Opinião. Depois perdi o contato. Fui para Abu Dabi trabalhar. Quando voltei a procurei por um tempo sem sucesso. Depois desisti.

- Ela era minha mãe. Faleceu no mês passado. Antes de morrer me revelou que tu és o meu pai.

- Eu? Por que ela nunca me disse?

- Ela era muito orgulhosa e esperava que a procurasse. Ela sempre te amou. Me criou sozinha esses anos todos. Não se casou esperando por ti.

Era muita novidade para uma manhã só. Faltou-lhe o chão dos pés e a taquicardia chegou forte, dando-lhe falta de ar. Procurou disfarçar, mas não conseguiu e caiu pesadamente no sofá. Aquele domingo era o Dia dos Pais, talvez ela tenha escolhido a data de propósito. Ironicamente, o primeiro da sua vida de solteirão irrecuperável. Como tornar-se pai assim de forma tão abrupta?

Mas aquela moça morena e bonita como a mãe era sua filha. Estava diante dele, e não sabia como abraçá-la. Ela, vendo-o tão fragilizado, esqueceu-se por um instante da raiva e do ressentimento. Deu-se conta de que era o último pedaço da sua família. Abraçou-o. Ele custou a corresponder. Ainda não sabia que nunca mais seria o mesmo.


***

Luis Alberto Saavedra nasceu no Uruguai (1949), formou-se em Ciências Contábeis em 1976 e em Ciências Jurídicas em 1986 pela PUC. Aposentou-se como Procurador da Fazenda Nacional. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Comentários:

Báh! O autor domina as emoções com maestria, como se as tivesse inventado... Parabéns Saavedra! Já estou acostumado com o teu talento, mas sempre me surpreendes positivamente.

Valdir Lima, Poto Alegre 31/10/2019 - 15:05

Quando as frases dançam cheias de graça e sua leitura lubrifica nossa alma, fazendo nosso coração bater forte. E pensar....
Adorei!!!

Silvana Robetti, Bento Gonçalves 17/09/2019 - 10:14

Eu raramente consigo ler contos até o final, este é um dos poucos que não somente "consegui" como APROVEITEI muito enquanto lia, que maravilhaaaaaaa de narrativa tão boa!! Coloca o leitor dentro do que está contando, que lindo! Parabéns! É meu sonho publicar mais meus textos e esta leitura me encheu de ânimo! &128513;

Shirlei Germano, Barcelona / España 07/09/2019 - 09:56

Parabéns, Luisão. Excelente! Ainda quero ver as tuas palavras tocando ainda mais as pessoas. Sucesso!

Douglas Soares, Porto Alegre 07/09/2019 - 08:45

Uma grande alegria Saavedra, ver teu conto, teu talento literário sendo publicado. Grande abraço

Ricardo Zugno, Caxias do Sul 06/09/2019 - 23:32

"Estava diante dele, e não sabia como abraçá-la." Na hesitação do abraço, muitas vezes silenciamos nosso amor mais sincero ... obrigado meu amigo!

Flavio Dal Pozzo, Porto Alegre/RS 06/09/2019 - 23:17

Que lindeza! Em poucas linhas transcreve uma emoção tão significativa!

Aline Medeiros, Porto Alegre 06/09/2019 - 20:48

Parabéns dindo querido. Tenho muito orgulho de ti.

Martha Oliveira Cardoso, Porto Alegre/RS 06/09/2019 - 19:24

Parabéns, primo querido!
Excelente reflexão... Sempre há tempo para o perdão e reconsiderações...
Orgulhosa por ti!

Fátima Garcia, PELOTAS 06/09/2019 - 18:28

Que FANTASTICO meu Primo AMADO, sabia que gostavas da Leitura, mas não que escrevi as tão Bem . . .

José Júlio Garcia, Rio Grande RS / Santa Vitória 06/09/2019 - 17:24

Coisa linda, boa leitura!!!

Rafael, Porto Alegre 06/09/2019 - 16:59

Gostei muito Saavedra! Parabéns! Que muitas outras obras suas sejam publicadas para termos acesso a boas leituras como essa.

Adriana Mendes, São Paulo 28/08/2019 - 16:35

Muito lindo, Dindo. Parabéns!! Saudades e feliz dia dos pais atrasado. Beijos

Emanuela, Caxias do Sul/RS 18/08/2019 - 13:30

Muito bom. Parabéns!!!

Marcos Rodrigues Christiano Silva, Niteroi 18/08/2019 - 11:02

Saavedra que lindo! Até me emocionei! Escreves em um modo que nos leva a ver, imaginar cada cena! Vai adiante nesta nova carreira! Parabéns! Bia

Beatriz Simoes, Rio Grande / RS 17/08/2019 - 13:36

Parabéns Savedra! Lindo texto, muito significativo.

Neiva Teresinha dos Santos, Caxias do Sul 17/08/2019 - 13:29

Amei!!
parabéns Luis Alberto

Elci Teresinha, Porto Alegre 16/08/2019 - 15:55

Gostei muito. Me confirmou mais uma vez que quando existe a verdadeiro amor embora muitas vezes terão desencontro s temos a possibilidade ter um novo recomeço.

Maria del Carmen, Porto Alegre - RS 16/08/2019 - 13:20

Gostei muito! Abraços

Luciane Bernardes, Porto Alegre 10/08/2019 - 16:06

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