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Luiz Paulo Faccioli


Fica toda sem jeito quando pergunto por que se trancou. De repente começou a se preocupar com essas bobagens. Nós nunca nos trancamos, ela pode me ver nu se quiser. A nudez não tem nada de mais, foi o que sempre ensinei. Por que passou agora a querer privacidade? Eu precisava apenas de algodão e iodo, não pretendia espioná-la. Cortei o dedo na cozinha, nada tão grave ou tão urgente, só desagradável. Talvez tenha me irritado um pouco além da conta, admito, ao ver o sangue fazendo aumentar a mancha na atadura improvisada com o pano de pratos, na difícil espera à porta do banheiro. Imagino que essa demora seja típica das mulheres, mas com Sílvia nunca foi assim. O senso prático de minha mulher e o hábito de jamais nos trancarmos me desacostumaram de observar o tempo que Helena gasta hoje no chuveiro. Bati, gritei para que ela se apressasse. Não adiantou. Insisto agora:

Por quê?

Ela acaba de abrir a porta mas ainda bloqueia a passagem, enquanto me põe uns olhos assustados e me desconcerta. Se já é péssima a sensação de ter provocado medo em alguém, ela se torna insuportável quando se trata de Helena. Tento justificar minha irritação erguendo a mão e mostrando o pano ensanguentado. Ela estremece e recua. Por Deus, não sei o que possa haver de errado. Helena vive alardeando que quer ser médica, adora uma gotinha de sangue, e ela é quem administra na casa o material dos primeiros socorros. Imaginei que não fosse perder a chance de pôr em prática seus conhecimentos e que viria correndo tratar do meu machucado. Decido ter com ela uma conversa bem séria. Depois da janta, pois agora tenho de cuidar deste dedo e voltar para a salada, o assado está quase pronto e Sílvia já deve estar chegando.

Peço licença, ela finalmente libera a porta. Entro rápido, abro a torneira, livro-me do pano, deixo a água correr sobre o corte. Pego o iodo, tento destampar o frasco só com a mão livre, não consigo. Tento usar também a outra mão, mas o sangue não para de jorrar. Desisto. Helena acompanha tudo com o mesmo olhar esquivo.

Me ajude aqui, filhinha.

Nem o diminutivo carinhoso consegue disfarçar a exasperação, mesmo assim ela se aproxima.

Deixe que eu cuido disso, decide, cumprindo finalmente com o que eu esperava desde o início. Num segundo já está no comando. Despreza o iodo e, muito segura do que faz, vai apanhando a água oxigenada, o algodão, a gaze, o esparadrapo. De volta ao normal, penso aliviado.

Vendo Helena fechar o curativo, depois de ter feito estancar o sangue sem nenhuma dificuldade, pela primeira vez me dou conta e me assombro com isso: minha filha já está mocinha. Calculo rápido sua idade e imagino ser precoce a desenvoltura com que trata do ferimento. Helena mocinha, e agora ela já não tolera que eu a veja no chuveiro, quando até há bem pouco era eu quem a atendia no banho, mesmo nos dias em que Sílvia chegava mais cedo. Helena e eu sempre gostamos de estar juntos, e aquele era um momento especial: ela, numa alegria arreganhada de criança, eu, ainda meio vacilante no papel de pai, e ambos nos entendendo maravilhosamente bem apesar de nossas limitações.

Você já está uma mocinha, Helena, repito em voz alta, agora com uma ponta de orgulho. Mas ela não dá trégua:

Não gosto que você fique falando essas coisas...

Que coisas, minha filha?

Pronto, está de novo na defensiva. Será o pé do Benedito?, exclamaria minha avó, se pudesse presenciar a cena. O que pode estar passando pela cabeça dessa garota?

Que coisas, Helena?, insisto, e agora não tenho mais como deixar o assunto morrer. Percebendo que eu não vou sossegar enquanto não obtiver uma resposta, ela tenta encerrar a conversa:

Essas coisas...

E já se prepara para bater em retirada. Mudo a tática:

Você não quer me dizer o que está havendo?

Não, ela não quer, mas de alguma forma acertei no diagnóstico. Há de fato algo e que ela não está disposta a me contar. Sei disso porque nunca antes foi preciso que eu fizesse esse tipo de pergunta. Helena tem de novo uma expressão estranha, que me deixa constrangido. Estou metido num jogo de gato e rato com minha própria filha e sequer sei o motivo.

Me conta, Helena.

Não é nada, papai, diz finalmente, com toda a suavidade, como se nada tivesse acontecido até então e o louco na história fosse eu.

Coisas de quem já é mocinha, ela arremata, me deixando sem fala, enquanto foge para dentro do quarto.


***


Muitas vezes tenho me perguntado se a decisão de Paulo foi de fato a mais acertada. Administrar a casa e cuidar de nossa filha, deixando assim que eu seguisse a carreira sem esses empecilhos naturais, pode ter sido uma ótima solução para mim. Mas terá sido boa para ele? É certo que ele já se acostumou a trabalhar em casa: um computador e silêncio absoluto é tudo o que precisa para escrever seus artigos. À tarde, quando Helena vai ao colégio, Paulo então se dedica a eles. Não sem padecer com as interrupções frequentes da campainha e do telefone. Sei muito bem o que significa isso. Eu também escrevo, mas com outro objetivo, e cedo descobri que a concentração é sempre essencial. Na agência, pelo menos consigo manter distância das atribulações domésticas. Paulo não tem a mesma sorte e parece não se preocupar muito com isso. Fico pensando se, caso a situação fosse outra, ele já não teria progredido como cronista e escrevesse hoje para um jornal mais importante; quem sabe até mesmo se dedicasse a um livro.

No fundo me embaraça ainda esclarecer aos outros essa pouco usual troca de papéis. Paulo, ao contrário, convive muito bem com ela, o que acaba me constrangendo ainda mais. Sei que o problema é meu e que ele tem uma cabeça melhor do que a minha. Por isso mesmo concordou com a situação e agora sente-se confortável nela.

Também me ressinto de não participar mais na vida de Helena. Daqui a pouco, minha filha já não será mais criança, e eu tenho acompanhado seu crescimento meio à distância, como espectadora. Paulo sempre tomou conta de tudo: comida, banho, pediatra, vacina, colégio, livro, caderno, merenda. E eu agora sequer sei o nome de sua música preferida. Paulo sabe e já baixou várias versões. Se eles dois sempre foram muito ligados, eu acabei sobrando um pouco na história.

Esse é meu último pensamento antes de entrar em casa. Mal abro a porta e já sei que algo de estranho aconteceu. Talvez o silêncio incomum me dê essa impressão.

Paulo? Helena? Chamo por eles, mas o que eu quero de fato é anunciar que cheguei. Tantas horas passadas fora me fazem criar sempre a expectativa de uma recepção calorosa. E, exceto por hoje, é o que tem acontecido todos os dias. Hoje o que sinto é desconforto pela falta do bulício que faz minha pequena família sempre quando entro em casa.

Paulo sai do banheiro, e a primeira coisa que vejo é um gordo curativo em seu dedo.

O que houve com a mão? Onde está Helena?

Não sei bem por que as duas perguntas saem juntas, sem que haja um nexo aparente entre elas. Paulo inverte a ordem ao responder:

Helena está no quarto. Aqui não foi nada: um cortezinho à-toa.

Tampouco sei por que esta minha preocupação intuitiva e repentina com Helena. Corro até seu quarto, tento entrar, a porta está trancada. Bato, cada vez mais apreensiva, chamo. Ela abre assustada, mas logo consigo perceber que minha filha está bem. Abraço-a com força, enquanto Paulo se exaspera:

O que está acontecendo nesta casa?

A voz dele às minhas costas, embora exaltada, consegue me devolver a segurança que senti falhar neste último e longo instante. Desde que pus os pés em casa, é como se eu tivesse entrado em outro mundo. O inoportuno silêncio, o curativo em Paulo, a ausência de Helena, tudo provocou em mim a sensação de tragédia. Não havia motivo. Paulo tem razão agora de não compreender o que se passa comigo. Nem eu mesma sei ao certo.

Não foi nada, meus amores. Estava doente de saudade, só isso.

Paulo não se convence com minha justificativa, tão apaixonada quanto falsa:

Vocês duas ainda me levam à loucura!

Nós duas? Não tenho tempo de esclarecer, pois ele já bateu em retirada. Deixo Helena com um beijo e vou encontrá-lo na cozinha, tirando do forno um majestoso assado. Paulo sempre se esmera no jantar. Eu, que não consigo fritar decentemente um simples bife, nunca deixei de admirar seu talento de cozinheiro. Apesar desta e de outras tantas diferenças, nosso convívio tem sido quase perfeito nestes anos todos. Não sei por que agora volta o sentimento ruim de que alguma coisa pode não estar tão bem como eu imaginava. Paulo, ao meu lado, monta o prato com o requinte de um profissional e numa serenidade contrastante com minha súbita angústia. O que terá aprontado Helena para que ele a incluísse na queixa que fez há pouco? Mas esta não é hora de perguntas. Sei que a culinária também exige concentração e não vou tirá-la de Paulo neste momento.

Depois da janta, quem sabe, vamos conversar sobre o ocorrido.


***


O Beto me perguntou se eu sabia o que era sexo.

É lógico que sim, não sou mais criança. Sei tudinho.

Já viu um pinto?

Claro!

De quem?

Do meu pai.

Pai não vale.

Ué, por quê?

Pai não tem pinto...

Claro que tem!

Não tem, não. Pai tem peru.

Qual a diferença?

Peru é o pinto de gente grande.

Quem disse?

Todo mundo sabe. Quer que eu mostre o meu?

Não.

Por quê? Anda espiando o peru do teu pai e não quer ver o meu pinto?

Eu não espio. Ele me mostra.

Isso é feio.

Feio por quê?

Meninas não devem ficar vendo o peru do pai.

Por quê?

De tanto olhar, elas acabam gostando.

Quem disse?

Todo mundo sabe. Só você que não.

Meu pai diz que não tem nada de mais ver gente pelada...

Teu pai é tarado.

Cale a boca!

Tarado! Teu pai é tarado!

Beto saiu gritando pelo pátio. Era hora do recreio, todo mundo ouviu e ficou me olhando. Quase morri de vergonha. Não sei por que o Beto fez aquilo. Guri bobo. Comecei a chorar, chorar, até que veio a profe, me levou pra dentro, me deu água, me falou que eu não devia levar a sério a bobagem que o Beto tinha dito, que ela ia passar uma boa descompostura nele. Me acalmei um pouco quando ouvi a palavra: descompostura. Não sei bem o que é isso, mas imagino que deve ser algo muito grave. Soube daí que meu colega ia ter o castigo que merecia. Chamar meu pai de tarado! E na frente de todo mundo!

Só de lembrar, comecei a chorar de novo. A professora ficou um tempão conversando comigo, e aí eu fui acalmando, acalmando. Então ela me perguntou:

Por que foi que o Beto disse aquilo?

Não sei.

O que foi que você contou a ele?

Não quis responder e fiquei de novo com vontade de chorar. A profe não falou mais nada. No fim da aula, me chamou, me deu um envelope fechado e disse que eu entregasse pra minha mãe. É claro que eu abri. Ela pedia que mamãe fosse até o colégio, com urgência. Não estava gostando nem um pouco daquilo. Rasguei o bilhete e joguei no lixo os pedacinhos de papel.

O Beto disse que papai era tarado. Será que ele é mesmo? Um dia eu espiei papai tomando banho. Ele já estava cheio de espuma e ainda esfregava o sabonete na barriga. Aí foi descendo, descendo e passou a mão naquele troço. Parecia feliz da vida. Ele não me viu. Saí de fininho, porque sei que é feio ficar espiando os outros. É o que papai sempre diz. A gente pode ver, mas não espiar. São coisas diferentes, ele explicou. Papai é tão querido. Nunca me xinga, nunca me põe de castigo, fala comigo como se eu fosse adulta. Eu entendo tudo que ele diz. O tarado é mau, porque deve bater nas crianças. Meu pai não é mau, mas o Beto chamou ele de tarado porque ele pensa que não tem nada de mais ver gente pelada. Será que quando ele me vê pelada sente o friozinho por dentro também? Papai não faz coisas feias, não. O Beto é que é bocó. Vai ver que o pai dele trata ele como se fosse criança, e ele não sabe de nada. Mas acho que papai me espia, sim. Ele diz que é feio, mas só quando eu faço. Ele pode tudo porque é adulto. Quando eu crescer, também vou poder espiar e aí não vai ter nada de mais. Não quero que ele me veja tomando banho. Agora eu tranco a porta. Mas papai não me deixa em paz. Hoje ele quis entrar e bateu, bateu, bateu. Queria me espiar, mas não deixei. Não deixo mais, só quando eu for grande. Ele me assustou.

Será que papai é tarado?

Não, não é, não. Ele tinha cortado a mão e precisava de um curativo. Estava nervoso, porque não gosta de ver sangue. Eu tratei dele. Aí ele ficou me olhando e disse que eu já era mocinha. Não gostei de ouvir aquilo. Ainda sou criança. Papai é tarado, e estou com medo dele.

Mamãe chegou muito esquisita. Abro a porta do quarto e agora ela me aperta com tanta força que dói. Papai vem atrás dela, e tenho vontade de rir do curativo que eu fiz nele. Continua nervoso, não sei por quê. Ele fez arte e não pode contar isso pra mamãe. Mas eu posso. E se ele não se comportar, eu conto pra ela que ele é tarado.

Ah, se conto.


***

Luiz Paulo Faccioli é músico, compositor, juiz Allbreed e Instrutor pela The International Cat Association — TICA. Autor de Elepê (contos, WS Editor, 2000), Estudo das Teclas Pretas (novela, Record, 2004), Cida, a Gata Maravilha (infanto-juvenil, Galera Record, 2008) e Trocando em miúdos (contos, Record, 2008), participou das antologias Porto Alegre: curvas e prazeres (contos eróticos, WS Editor, 2002), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial & eraOdito editOra, 2004) e 35 segredos para chegar a lugar nenhum(crônicas, Bertrand Brasil, 2007), entre outras. É crítico literário, colunista de literatura da Band News Porto Alegre e colaborador do Jornal Rascunho de Curitiba. É professor do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.

Conto publicado anteriormente no livro Primeira Pessoa, da Editora Metamorfose.

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Comentários:

Lendo teu conto, ficou ainda mais claro, para mim, que um escritor não pode de jeito nenhum ser medroso, cheio de dedos. Adorei.

Marlene Netto, Cachoeirinha - RS 03/10/2019 - 18:43

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