Contos

O primitivo

Marlene Netto


Dizer algo que possa ser conveniente, era nisso que ele pensava o tempo todo. Estar predisposto a ouvir sem interferir nas argumentações, mesmo que não concordasse. Ele apenas queria ser forte o suficiente para se conter e não elevar seu tom de voz, aquele tom áspero e costumeiro que pudesse denunciar seu descontrole. Saiu na quarta à tarde para resolver a pendenga, o ex-patrão o chamava. Foi decidido, saberia lidar com a situação. A conversa que havia tido com sua querida mãezinha lhe tinha sido como bálsamo, como tranquilizante e ativadora de grandes esperanças. Haveria, sim, haveria de conseguir. Por mais que já tenha sido rude, por mais grosseiro e inconsequente que já tenha sido um dia, por mais desobediente, questionador, por mais que lhe dissessem que jamais conseguiria um momento de humildade e colaboração, ele queria tentar, ele almejava mudar.

O chamaram, queriam falar-lhe, pareciam bastante incrédulos com a vontade inusitada de Sandoval, era quase inacreditável, mas queriam pagar para ver, afinal a mãe do vivente parecia ter lhe puxado as orelhas. "O Sandoval? O velho e inconsequente Sandoval? Aquele que foge às regras, que não se enquadra e não colabora em lugar nenhum? Que brincadeira é essa?" Todos falavam a mesma coisa, não queriam saber do homem nem pintado de ouro, que se danasse o Sandoval, que fosse para o brejo pastar que era lugar mais apropriado para ele. O próprio Santiago, irmão da criatura, não acreditava na possibilidade de mudança. "Esqueçam, esqueçam, Sandoval não tem remédio, é vagabundo!". O pai morria de desgosto, já havia o deserdado, a madrinha, que até parecia simpatizar com o dito, desistiu no meio do caminho. Foi até a mãe do sujeito e lhe disse: "Ah, Leonorzinha, desculpa, eu bem que quis ajudar teu filho, mas sabe, não sabe? Ele não coopera. Veja só, eu ia lhe pagar bem, pedi a ele que lavasse meu telhado e passasse cera, então me olhou com aquele olhar fulminante, que derrete até a alma da gente. Tá, eu quis consertar a situação, dai falei: Sandovalzinho, olha, desculpa a madrinha, a dinda exagerou. Veja, não precisa lavar o telhado, muito menos passar cera. Faz o seguinte, então pra madrinha, pra madrinhazinha do teu coraçãozinho, só limpa o meu sapato, bem limpo com a tua língua." - nesta hora a madrinha balançou a cabeça com as mãos a lhe tapar o rosto. - "Não consegui falar mais nada, Sandovalzinho ficou tão nervoso, mas tão nervoso, que elevou a voz pra um trovejar pavoroso, meus ouvidos estouraram na mesma hora, e, como se não bastasse, porque ele achou pouco, puxou a cinta da calça e lançou nas minhas costelas. Não dá Leonorzinha, não dá, desculpa". A mãe dele era, de fato, a única que tinha certeza que o filho prestava, que a vida não podia lhe fazer desfeita.

Um dia Sandoval foi falar com a mãe, cheio de lamento choramingou as provocações e desrespeito com sua pessoa, que os outros lhe faziam. “Oh, mãezinha, minha rainha, te peço desculpas, não consigo ser um bom filho, não presto pra nada nesta vida, não me enquadro neste mundo.” A mãe afagou o rosto do filho, o olhou enternecida, juntou as mãos e orou a Deus para que fizesse de seu rebento um homem de bem, obediente, que servisse os patrões e o mundo com amor, com dedicação. O filho, vendo a mãe sofrer, amargurada, preocupada com seu destino, ajoelhou-se diante dela e, mais uma vez, pediu desculpas e prometeu, por tudo o quanto era mais sagrado, que ia se redimir, ia melhorar, ia se tornar um cidadão de bem. A mãe o abraçou, o abençoou. A conversa foi das boas, Sandoval ficou animado, confiante. O assunto se espalhou, a comunidade só falava na conversão de Sandoval.

Chegou o dia da prova, fez as suas trouxas e naquela quarta-feira saiu decido, foi lá falar com os homens. Ele chegou suado e cansado da viagem, pediu por gentileza um copo de água, todos que estavam na área se entreolharam. "Por gentileza? Sandoval pedindo por gentileza? O mundo tá acabando!" - falou o grandão que o chamou para averiguar se, de fato, ele havia mudado. "Vamos ver, Sandoval, vamos ver! O Sandoval é um abobado!" - falou o sujeito só pra provocar. Ele nem te ligo farinha de trigo, ficou firme. "Sandoval é covardão, é preguiçoso!" - falou outro, que mascava um palito de dentes. Sandoval só observando, quase sorrindo. "Sandoval é um merdinha, um raspa bosta!". Deram risada, e ele sério, só ouvindo, como havia prometido pra si mesmo e pra sua mãezinha que lhe tinha aconselhado. "Sandoval é burro, não sabe ler, dá vergonha pra sua mãezinha!” Sandoval coçou a cabeça, coçou a barriga, piscou os olhos, mas não falou nada, nadinha. "Sandoval é filho de uma égua, de uma puta, quenga dos infernos!". Sandoval abriu o berro de trovão, ficou vermelho feito vinho tinto, atiçou as beiradas das narinas, que branquearam na mesma hora, e puxou de dentro da calça um facão que reluziu à luz do sol, partiu pra cima de todos, chispando a lâmina no ar de um lado pra outro, de cima pra baixo e invertido também, o sangue rolou solto pelos braços, pernas, costelas e paletas, quem conseguiu correr, correu, quem não conseguiu ficou ali mesmo desacordado, atirados uns por cima dos outros, e o trovão trovejando, ninguém mais conseguiu calar aquela boca. Sandoval desistiu de mudar. "Pros diabos que eu mudo, estes pestes acham que eu tenho sangue de barata. Pros infernos!"

***

Texto de Marlene Netto, gaúcha, artesã, contadora de história, tem paixão por escrever. Iniciou como autora em 2018 participando do livro de contos "TRANSGRESSÕES".

Revisão e leitura crítica de Mitcheia Guma.

 

 

 

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