Quem não tem medo de nada?
 



Contos

Quem não tem medo de nada?

Jéssica Carla Marques


As pessoas dizem que quando lençóis voam, nenhuma alma sã fica por perto. Eu acho que era esse o ditado... Ou eram baratas?

De toda forma, eu não tinha fugido. Eu me tremia embaixo do cobertor achando que o que estivesse na beirada da minha cama esta noite iria apenas sumir. Isso não aconteceu e eu tive que reunir forças para olhar. Eu poderia gritar e chamar minha mãe, mas meu pai iria dar uma bronca em mim e nela. “Garotos não tem medo de nada”, ele disse uma vez quando eu fugi de um sapo que estava no jardim. Meu pai pegou o sapo verde gigante e ergueu-o bem na minha cara. O bicho abriu a boca enorme e sua língua voou em minha direção. Eu chorei. Minha mãe brigou com ele. Ele deu um tapa nela. Aí foi ela quem chorou. E eu quis desaparecer. Qualquer coisa era melhor do que aquilo.

E essa era uma dessas noites que eu "desaparecia" ou fingia que não existia enquanto eles brigavam no quarto ao lado. Então eu teria de enfrentar o fantasma sozinho. Imitar meu pai talvez desse certo, apesar de não gostar nem um pouco. Uma face bruta como a dele, nem que fosse bem artificial, era melhor do que a minha natural que não enganava ninguém. Me arrastei na cama e ergui a cabeça, parecia um bebê engatinhando para as pernas de um adulto.

— Que tipo de homem você pensa que seu pai é? – A coisa perguntou antes mesmo que eu lhe mostrasse a carranca que o expulsaria para o inferno mais próximo. Senti uma vertigem forte e caí atravessando o fantasma, que nem era assim tão fantasma, era mais como uma sombra ou um acúmulo de fumaça preta, fumaça de comida queimada em forma de gente. – Eu sei que está com medo, mas eu não vim aqui por você. Eu vim aqui para você.

— Como assim para mim? – A sombra flutuou mais para porta do meu quarto.

— Se quiser eu dou um jeito no barulho. Você quer?

Quem seria eu para impedir um fantasma de fazer todo o trabalho por mim? O trabalho de enfrentar meu pai. A sombra se foi após meu “sim”. Um baque e um grito se seguiram, meu pai saltou de seu quarto e correu para o meu, fechando a porta com força. Ele estava catatônico, apavorado, uma emoção nunca antes vista nele. E enquanto a sombra empurrava a porta com tamanha força que ela nem parecia mais estar presa nas bordas, ele gritou:

— Caleb, me ajude!

Eu não saí do lugar. Ao invés disso, respondi:

— Garotos não tem medo de nada.

***

Jéssica Carla Marques, 24 anos. Formada em Design Digital. Já fez alguns cursos de cinema e edição de vídeos, lê e escreve desde pequena. Possui um conto publicado em uma coletânea chamada "Outrora", da editora Andross, no qual fala sobre uma distopia em que casamentos são realizados por meios de lutas. O nome do conto é "Liberdade". Ama histórias com personagens cativantes tanto em livros quanto em séries de TV nos mais variados gêneros, porém tem certa inclinação para aventura, luta, romance e terror.


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