Crônicas

Voagem

Soraia Schmidt


Viagem. Palavra com vários sentidos e significados. Todos fantásticos. Pode ser no sentido figurado ou literal, mas ambos têm um ponto em comum. O movimento. Seja para dentro ou para fora. Significa sair de um lugar para chegar noutro. Ou talvez, nem chegar. Ficar pelo meio, no caminho. Como já disse Mia Couto, viajar é alcançar o longe.

Viver sempre no mesmo lugar entedia, amortece, anestesia. Aprisiona, corpo e alma. Precisamos de mudanças movimento. Ele nos leva a novas configurações mentais, percepções, sensações e emoções.

Viajar significa soltar as amarras. Zarpar. Deixar-se levar. Abrir-se para o porvir: de pessoas, paisagens, lugares e principalmente, de sentimentos. Assim, recria-se. A si mesmo, a vida o nosso mundo. Isso é vital. Faz renascer, rejuvenescer.

Mas para viajar, nem mesmo precisamos sair de onde estamos. Podemos nos asozinhar e mergulhar numa viajem interna, que nos leva a muitos outros mundos. Basta ter coragem, gostar de si mesmo, fazer-se companhia, descobrir e redescobrir-se a cada momento.

Também pode-se viajar através de um bom filme, um bom livro. Torna-se possível ser o outro, qualquer um, ou, até mesmo, ninguém ou muitos. É sempre uma grande aventura.

Uma viagem pode ser um empreendimento ousado, repleto de risco, de perigo. Significa abdicar do controle que supomos ter da nossa vida. É uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis, que dependem da sorte, do lugar do acaso e, as vezes, da peripécia ou expertise. Viagens revelam muito sobre nós, seja pro dentro ou para fora.

Viajar literalmente, pegar uma mala e trocar de destino, ou sair por aí, sem um lugar definido também pode se um grande prazer, uma inspiração. Para viajar assim, só o que se precisa é esvaziar a mala na hora de arruma-lá. Que embarque apenas a alegria, o otimismo, o bom humor, a boa vontade. Partir de alma aberta, pois viajar é uma forma de flertar com a liberdade. É sentir-se do mundo. Ser universal. Se levarmos o relógio, a rotina e as preocupações, não viajaremos. Apenas mudaremos de lugar físico. Viajar é rechear-se, libertar-se. É sonhar acordado. Voar. Talvez seja o mais próximo disso que podemos conseguir. Pra isso, mala vazia de pesares.

E há um ingrediente fundamental: fazer as próprias escolhas. Fugir das imposições turísticas comerciais, dos apelos e multidões. Gente demais é poluição. Sufoca toda liberdade que quiséramos almejar.

Bom mesmo, é poder traçar o próprio rumo e aspirar a brisa e a poeira da estrada que nos levará as descobertas pelos caminhos.

Descubra sua viajem. Voltarás com a mala cheia: de prazeres, alegrias e felicidade. Renovado. Terás feito uma voagem.

***

Soraia Schmidt é médica, ginecologista-obstetra. Nasceu em Barros casal, Rio Grande do Sul em 1965. Mora em Porto Alegre, trabalha no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas e na área privada.

 

 

 

Comentários:

Parabéns! Amei a crônica e viajei através da mesma.

Gisele Vargas, Cachoeirinha 30/04/2019 - 10:35

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