Crônicas

Aquelas expressões tão inúteis quanto transitórias

Jacira Fagundes


Aquelas expressões tão inúteis quanto transitórias




Sabe aquelas expressões que ganham espaço indiscriminado no vocabulário? Alguém as expressa, não sei trazida de onde, e a coisa já virou lugar comum. É de domínio público. Tu as escutas do amigo, do vizinho, do sujeito que manobrou teu carro no estacionamento, da moça da lavanderia, do entregador de pizza. Pior. Elas tomaram conta das conversas, invadindo qualquer assunto, do trivial e prosaico das tagarelices ao formalismo das reuniões com a gerência. Estão na boca do chefe, dos colegas de escritório, do cônjuge, da filharada, e até da babá do pequeno. São insistentes, se repetem com cadência a intervalos diminutos, pois que aqueles que as adotam são-lhes absolutamente fiéis, acham bonito pronunciá-las sem cessar, e não se incomodam de martelar tua cabeça a cada trinta segundos. Estes costumam te surpreender no meio de um assunto; e sem qualquer constrangimento lascam aquele “Veja bem!” Assim mesmo, exclamativo, com ares de autoridade. Tu olhas com atenção o sujeito que fala, à espera de algo a ser vislumbrado, uma argumentação, um comentário elucidativo, mas nada disso acontece. E logo adiante já outra vez aquele veja bem te atropela, e só aí te dás conta do vazio da expressão, e te questionas se não é o caso de um cacoete recentemente adquirido.

O lado bom disto tudo é que ditas expressões não vieram para ficar. Felizmente os exageros têm vida curta e passam rápido ao esquecimento. Lembra o “realmente”? O discurso era mais ou menos assim: “assisti ao espetáculo (pausa) realmente muito bom, a interpretação da atriz, (pausa) realmente fenomenal, fiquei (pausa) realmente, muito emocionada”. Imagino que a criatura tivesse dúvidas (daí as pausas) quanto ao fato mencionado, se real ou irreal, quem sabe precisasse reafirmar para si mesma, ou ainda por carência de palavras a colocar nos espaços vazios da fala, sei lá, muita gente tem vocabulário ínfimo, e usa deste tipo de apelação. O realmente foi substituído mais tarde pelo “com certeza”, o mesmo esvaziamento de sentido, a mesma tolice.
E o “entendeu”? O indivíduo relata um acontecimento insignificante, ao nível de qualquer imbecil, e pergunta a todo instante se o interlocutor o entendeu. É demais para a minha paciência. Tenho um plano: a próxima vez que alguém me atacar de “entendeu?”, vou interromper e falar que não entendi, que me explique novamente, por favor. Acho que o sujeito vai levar o maior susto de sua vida; capaz de emudecê-lo ali mesmo. E eu vou me vingar. Agora, com os entrevistados no rádio e TV, já não tenho o mesmo controle. Se quiser assisti-los, não me resta alternativa, porque parece que esta beleza veio mesmo para ficar. Assim como o “é complicado”, que já dura um tempinho. De repente, qualquer bobagem passou a ser negócio complicado. Complicação é o que estão fazendo com o termo “diferente”, cujo significado é “não ser igual”; diz-se daquilo que apresenta um diferencial qualquer em relação a outro da mesma espécie. Simples. Mas deletaram o diferente, agora tudo é diferenciado. No meu entender, não são sinônimos. Mas o diferenciado está aí, na boca dos supostos intelectuais: o diferente deles acrescido de uma importância e de um valor que só eles conferem.
Porém o candidato a campeão de audiência, tomando-se aqui audiência como o massacre aos ouvidos por uma ressonância de milhares de decibéis, é o famigerado “vamos combinar”. Vamos combinar o quê, meu irmão, meu filho, meu compadre, meu fornecedor, meu vizinho de porta, meu síndico, meu parceiro, meu comentarista esportivo preferido, meu caro interlocutor? Vamos combinar o quê?
Candidato também, que parece surgido de mansinho, mas que se dispõe a uma longa duração, é a expressão “na verdade”. De repente, todos precisamos convencer nosso interlocutor de que não somos mentirosos tampouco lunáticos. Então abrimos a boca e lascamos a expressão. Antes daquilo que, na verdade, queremos dizer.
Ato falho. Olha eu aí adotando o cacoete! Na verdade, me perdoem!

 

 

 

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