Marujos na tempestade
 



Contos

Marujos na tempestade

Luzia Regina Camargo


Havia um valão entre a calçada e a rua de terra vermelha. Nos dias de inverno, e até mesmo no verão, os fortes temporais transformavam as ruas em corredeiras vivas de água com chocolate. Naquele dia, nos contentamos em assistir da vidraça da janela tudo que descia rua abaixo. Inclusive aos moleques tomando banho de chuva.

Esbaldavam-se nos buracos mais fundos distribu√≠dos na extens√£o da rua toda. Gostar√≠amos de estar l√° tamb√©m, sem a preocupa√ß√£o de pegar uma doen√ßa naquelas √°guas sujas. Eles, munidos de anticorpos, com isto nem se preocupavam. Os rel√Ęmpagos se repetiam, um atr√°s do outro, e eles nada de terem medo. A felicidade de se banharem naquele rio faz de conta, lavando a alma na fartura de √°gua. E n√≥s ali, carentes de brincadeiras.

Nossa casa, construída em terreno acidentado, ficava abaixo de um barranco vermelho. Não éramos imunes às chuvas. Na rua, descia outra cascata de água barrenta por dentro do terreno inclinado na direção da nossa casa. Descia do barranco bem na direção da porta dos fundos. Mesmo com uma valeta cavada para desviar a água da chuva, não dava conta de escoar tudo.

Acontecia de o barro vermelho invadir por debaixo da porta e inundar a casa toda. Enquanto o temporal continuava intenso, colocamos panos embaixo do vão da porta tentando diminuir a entrada do barro. As vassouras faziam o serviço de empurrar água para fora pela porta da frente. Trabalho árduo que não resolvia em nada, só tentando não deixar o nível da enxurrada alcançar os móveis. Empurrávamos para a rua o lodo e fechávamos a porta, até precisar escoar novamente.

Trabalho de tirar água do barco com um baldinho. Aliás, vários baldinhos se revezavam depois de torcer trapos e enchê-los até a borda.

Nós nos divertíamos e a mãe nos acompanhava, criando histórias.

¬ďPeguem baldes e vassouras, marujos, e vamos trabalhar! M√£os √† obra ou morrer√£o de fome, na despensa s√≥ temos batatas!¬Ē

A tempestade n√£o cessava, esvazi√°vamos o barco para n√£o afundar.

¬ďTemos que atravessar a tempestade ¬Ė comandava a capit√£ ¬Ė voz firme, com sua espada, levando a tripula√ß√£o pra frente.¬Ē

Ventania da popa à proa sacudindo as portas, batendo as escotilhas.

A tripulação exaurida, a barriga roncando pedia um pouco de alimento.

¬ďComer√£o quando acalmar a tormenta, grita a capit√£.¬Ē

Os trov√Ķes, a cada vez mais espa√ßados, a chuva vai se afastando, a embarca√ß√£o j√° n√£o sacode tanto. O brilho dos raios mostra a express√£o de nossos rostinhos. Agora j√° v√£o serenando, olhos fixos no ch√£o alagado. Abrimos a porta e, com vassouras em punho, reiniciamos a limpeza do conv√©s. A luz n√£o voltou, mas inicia-se uma nova faxina. Torcemos os panos e passamos outra vez a vassoura de um lado para outro.

Os mais destemidos saem a buscar p√£o. A m√£e p√Ķe √°gua para ferver, vai sair caf√© quentinho e p√£o com manteiga.

Todos estão descalços no chão de piso molhado, as roupas molhadas, sentem frio. Quando acaba a tarefa seguem para o banho quente, trocam de roupa e vão para a mesa. Os marujos passam suas xícaras e a mãe serve o café fumegando. A manteiga derretendo no pão.

***

Luzia Regina Camargo √© jornalista graduada pela UFRGS e funcion√°ria p√ļblica aposentada. Nasceu em Porto Alegre em uma fam√≠lia de dez irm√£os em bairro da periferia.


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Comentários:

Esta capita, nos deixou um grande legado de aprendizado e nao seria justo, que nao passasemos para os demais atraves de seus contos.Parabens! Seus contos sao a continuidade de um grande legado que se estende aos demais.

Lidia Camargo, Viamao 09/11/2018 - 15:49

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