Compartilhando bergamotas
 



Contos

Compartilhando bergamotas

Magaly Andriotti Fernandes


Não lembra há quantos invernos não fazia tanto frio. Semanas e semanas de chuva, a umidade já penetrara os ossos. Não só nos ossos, estava com a alma congelada. O frio era tremendo. Frio de renguear cusco, como se diz aqui nos sul do país. Sozinha, sem um cobertor de orelhas para lhe aquecer. Acordou louca por um chimarrão. Espreguiçando-se, olhou para a rua e deparou-se com o sol acolhedor. Pegou a sacola de bergamotas, a térmica e o mate e foi para a praça em frente à casa.

Aquela pra√ßa era o p√°tio de seu apartamento. Frequenta-a desde a barriga da m√£e. A pracinha l√° no alto, com balan√ßos coloridos, escorregador e tanque de areia, simples, onde passou bons dias construindo vulc√Ķes, castelos e correndo. O lago... ali jogava p√£o para as carpas vermelhas e brancas, observando os movimentos de ir e vir intermin√°veis. Vida simpl√≥ria, pensava viver sempre ali naquelas √°guas escuras nadando de um lado ao outro. E quando a dona pata resolvia ampliar a fam√≠lia, era s√≥ festa. Os patinhos vinham comer o p√£o que jogava para os peixes. Um dia resolveu pegar um no colo. A ideia foi p√©ssima, pois a mam√£e pata veio em socorro do filhote e lhe deu muitas bicadas. Voltou para casa chorando, toda machucada.

As √°rvores eram em n√ļmero suficiente para formar um bosque de ip√™s roxos e amarelos, pitangueiras, goiabeiras e jacarand√°s. Com o bosque pr√≥ximo, os sabi√°s, os jo√Ķes de barro e as corru√≠ras garantiam o canto das manh√£s e finais de tarde. Adorava olhar l√° de seu quarto e ver aquele tapete colorido de flores. Na esta√ß√£o, s√≥ a paineira pintava de rosa a paisagem. Na primavera, a variedade das cores e o perfume lhe faziam viajar e sair para o dia cantando. Agora a √°rvore que mais amava era a figueira. Ela devia ter uns cem anos, fez parte de todos os ciclos de sua vida. Ra√≠zes fortes saem da terra formando pequenos espa√ßos, lugar m√°gico, ali brincou com as amigas. Os galhos largos e fortes, bons de subir, explor√°-los, bater corrida, quem ia mais pr√≥ximo ao c√©u. Na adolesc√™ncia, o terceiro galho lhe permitia uma vis√£o ampla da pra√ßa, e um maior sossego para meditar. √Äs vezes, seu c√£ozinho, um pinscher, vinha com ela e ficavam l√° como numa torre do castelo a observar os passantes. E seus frutos pequenos de um sabor √≠mpar.

Bora aproveitar o sol. Hoje est√° muito saudosista, resultado dos dias nublados que o antecederam. Abriu a canga, descascou uma bergamota, inspirando o cheiro, respirou ... ia comer o primeiro gomo, quando da figueira, salta um jovem rapaz.

¬Ė Quem √©s tu? ¬Ė Fala quase gritando, para encobrir o susto. E j√° fazendo sinal para levantar.

¬Ė Eu, eu dona? N√£o sou ningu√©m. Sou o morador dessa √°rvore, fique tranquila, n√£o mordo. Hoje eu precisava do sol, tinha escolhido a grama ao lado da figueira, fora do alcance dos galhos.

Ela olhou para cima e de fato, lá no terceiro galho, seu antigo espaço de meditação, um velho colchão era a base para as mantas e a lona preta que formavam uma cabana.

¬Ė Faz tempo que est√°s morando ai?

¬Ė Acho que sim, quando come√ßou a chover. Dormia ali na cal√ßada da padaria, certa noite acordei todo molhado, e achei esse lugar aqui. Ali era bem bom, o dono me acordava com um caf√© bem quente e um p√£o.

¬Ė Sim, mas n√£o chove igual?

¬Ė Chove sim, dona, menos, tem muitas folhas e galhos acima de mim. A lona evita que a √°gua molhe a minha cama, e como estou no alto, meu colch√£o fica seco.

¬Ė Queres uma berga?

Ele pegou e sentou-se próximo.

Ela ficou pensando, aquela figueira era mesmo magnifica e solid√°ria, tinha acolhido seus sonhos de inf√Ęncia e adolesc√™ncia. Uma vez ela e o pai fizeram um projeto de construir uma casa na √°rvore. Levaram o projeto √† prefeitura que n√£o autorizou. E agora a figueira oferece seus galhos para abrigar esse homem. E o banheiro? Como ser√° que ele faz? Ela espera que ele n√£o utilize seus cantinhos escondidos das ra√≠zes. E o bosque? Espera que ele n√£o o fa√ßa de vaso, e muito menos o lago! Isso n√£o √© problema seu, ou √©?

A cidade, n√£o adianta pensar sonhadoramente, tem que enfrentar, despeja gente pela janela ou pelo ladr√£o.

E, num silêncio sombrio, ficaram os dois a lagartear.

***

Magaly Andriotti Fernandes nasceu em Porto Alegre, em 1959. Psic√≥loga Jur√≠dica, √© membra do Grupo de Leitura e Cria√ß√£o Liter√°ria coordenado pela escritora Jacira Fagundes, junto √† Metamorfose. Publicou, com outros autores, a colet√Ęnea de contos "Pra ver a banda passar: contando hist√≥rias de amor" (2018).


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Comentários:

Como tem sido sempre que te leio, Magaly, gostei imensamente de teu texto. De forma simples, mas consistente e criativa, transportas o leitor para o universo da narrativa. De forma t„o convincente que dŠ vontade de lŠ ficar. Comendo bergamotas.

Rosane Kohl Brustolin, Farroupilha - RS 13/09/2018 - 22:42

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