Diálogos

Maria vai para creche?

Luciano Sandim Corrêa


— Pensou no que falei? — Olha para a esposa esperando uma confirmação.

— Ah...aquilo que conversamos outro dia?

— Você bem sabe, não se faça de desentendida, amor. Ela já tem idade, precisa conviver com outras crianças.

— Claro, e ficar doente a cada vez que for para a escolinha, “amor” — fala com ar de deboche e olhos em brasa —. Não precisamos disso, Maria está muito bem com a babá, na casa de minha mãe. Além disso, ela tem só um ano e meio. Vamos esperar mais um pouco.

— Ufa... não adianta. Já falei para você que a babá está querendo sair e a sua mãe já é idosa. O que vamos fazer se a babá não quiser mais o emprego? Temos que trabalhar. Além disso, pelo valor de uma babá compensa mais uma escolinha! Não tem nem os encargos sociais...

— Então é isso! Você está pensando é em reduzir gastos. O que vale mais a pena: a saúde de nossa filha, bem cuidada e vigiada o tempo todo, ou um lugar lotado de crianças com apenas uma ou duas cuidadoras, podendo se machucar e cair?

— Mas, mas...

— E fique tranquilo, que se uma babá sai, outra entra.

— E as visitas que fizemos às escolinhas? Não valeu de nada? Pense bem, aquela perto de casa, tem bastante área verde.

— Eu só fui por insistência sua, como uma segunda opção, depois que a babá disse que fez um concurso público e talvez deixaria de trabalhar para nós.

— Olha que ela está na lista de espera, amor...

— Mas isso ainda não se concretizou, carinho. E quanto à escolinha, aquela de parede azul, perto de casa, que você falou, notou por acaso o cheiro de xixi e mofo por todo o lugar, as crianças vendo tevê o tempo todo? Notei até uma criança pegando a mamadeira de outra e colocando na boca... faça-me um favor, essa não.

— E aquela perto da casa de sua mãe? Parece uma boa escolinha, com um playground enorme para a Maria. Assim, querida, os seus pais poderão ir vê-la quando quiserem e até buscá-la para nós, fica só a duas quadras da casa deles.

— Vixe, essa, muito menos! Eles disseram que não dão banho, a Maria já tem que vir pronta para a escolinha e almoçada, com pelo menos dois brinquedos na mochila e a bolsa do nosso bebê feita. E não é só isso, se quisermos que seja dado leite para ela, eles dão de saquinho apenas. Em outras palavras, vai ficar tudo para eu fazer e você nada, bonitão... mas para a gente encerrar o assunto, proponho contribuir com as despesas da babá, trinta por cento.

— Quarenta?

— Trinta e cinco e não falamos mais no assunto.

— Fechado, Maria não vai para a creche.

***

Luciano Sandim Corrêa, natural de Campo Grande-MS, é graduado em Direito pela UCDB, curso concluído em 2001, e pós-graduado em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela UNIDERP e em Direito Administrativo pela Universidade Anhanguera-UNIDERP, tendo concluído os cursos mencionados nos anos de 2007 e 2012, respectivamente. Exerceu a advocacia entre os anos de 2002 a 2008. Atualmente, vive em Cuiabá-MT, ocupando o cargo de Analista Judiciário perante o e. TRT da 23ª Região. Além do Direito, interessa-se por História, línguas estrangeiras, literatura e poesia e está participando da Oficina de Criação Literária 2018, sob a orientação do professor Marcelo Spalding.

 

 

 

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