Crônicas

O investigado

Arnaldo Antunes




– Bom dia, o senhor mandou me chamar?
– Ah, oi… bom dia, Carlinhos. Entre, entre. Feche a porta, por favor. Há quanto tempo está no partido? Uns dois anos?
– Ainda vai fazer um ano, senhor.
– Pois é, já tá na hora de se envolver mais nas questões importantes, de assumir mais responsabilidades, entende?
– Sim, claro. Concordo plenamente.
– Então, pensando nisso a gente resolveu contar com a sua colaboração. Você gosta de viajar, não gosta? Pois é, quem não gosta? Manter um partido com a nossa importância é muito complicado, sabe?
– É… imagino.
– A gente sempre precisa contar com a ajuda de alguns parceiros que fazem parte do nosso grupo político, mesmo sem ser filiado, entende? Eles também participam do nosso projeto de substituir esse governo incompetente e corrupto que está aí.
– Pode contar comigo, senhor.
– Tenho certeza disso. A gente precisa que você pegue um valor… coisa pouca, sabe? Um certo valor com um pessoal lá de Minas Gerais e traga pra cá. Só isso. Já compramos uma passagem pra você. Seu ônibus sai amanhã pela manhã.
– Tudo bem, mas não seria mais fácil depositar na conta do partido e economizar a viagem?
– É uma coisa de princípio, sabe? Não gosto de dar dinheiro pra banqueiro. Os caras são uns verdadeiros ladrões. E a gente é que leva a fama.
– Ok, mas não era o Oliveira que fazia isso?
– Era, mas ele tá cuidando de outras coisas agora. Assumindo novas responsabilidades. Igual a você. Não fique preocupado com nada. Vou até ligar pra Isabel, pra ver se ela já tá cuidando de tudo.
– Alô? Belzinha, querida?
– Fala, meu presidente… é sobre aquele assunto do Carlinhos?
– É, eu estou com ele aqui no viva-voz. Já adiantou a documentação pra doação daquele fazendeiro?
– Tá tuuudo certo. Nos conformes.
– Obrigado, querida. Tchau, tchau.
– Viu? Não tem com o que se preocupar. Vamos almoçar juntos? Ainda temos alguns detalhes para acertar.
– Desculpe, senhor, mas o Toledo já me convidou e eu fiquei sem jeito de recusar.
– O quê? Tá se bandeando pra facção rival? Brincadeira… O Toledo é parceiro demais. É gente nossa, sabe? Então, a gente se reúne depois do almoço.

********************

– E aí, como é que foi? Fez o que eu te pedi?
– Você estava certo, Toledo. Eu tinha que gravar mesmo.
– Eu te falei, garoto, conheço esse pessoal. Bom, vamos conversar durante o almoço. Agora sei que você é um cara leal. Tenho um cargo que pode te interessar.

 

 

 

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