Crônicas

Joaquina

Fabiana Correa




Encontrei Joaquina já acordada,encolhida sob o manto ressecado. De seu corpo desgastado, restava-lhe a pele sulcada e ossos em pronunciados nós. Quando cheguei com seu café da manhã, me disse o bom dia costumeiro, sem fixar o olhar. Sorveu lentamente o café com leite e pedaços mergulhados de biscoito. Permaneci calada ao seu lado. Era esse o nosso ritual:o café silencioso. Somente quando me entregava a xícara vazia, nosso diálogo começava.

- Tive uma noite de sonhos cheios de memórias dos anos que não conto mais.

- Mas isso é bom, Joaquina. Você não teve uma vida feliz? Não viveu por suas escolhas, como costuma nos contar?

- Mas vivi por muitas vidas. Não precisava tanto.

Deixei Joaquina com suas memórias e fui lhe preparar o banho. Quando voltei, chamei por ela mas não me respondeu. Quase sempre era assim. Continuei nossa rotina, conversando sobre o tempo, o sabonete novo e a toalha macia. Debaixo da água morna, seu olhar passeava por algum lugar não visto, mas que a fazia sorrir. Terminado o banho, fomos para o jardim. Joaquina adorava o tempo de sol porque, segundo ela, ele lhe aquecia os ossos e consumia o azedume alma. Caminhamos lentamente, braços dados, até o seu banco preferido. Depois de se acomodar, Joaquina pôs-se a falar, guardado os olhos bem fechados.

- Meus sonhos hoje não foram desbotados e trouxeram um tempo feito de cores muito vivas. Euusava vestido de renda e flores, com laço de fita nas tranças e sapato de verniz. Minha casa tinha perfume de canela e a janela ficava sempre aberta ao sol. Por ela, vi o desfile do circo,a retreta da banda, procissão do Santíssimo e até o retorno dos três pracinhas manchados de guerra. Vi cortejos de casamento e também de encerramento. Acenei para muitos, recebi sorrisos e desejei boas novas. Aos que partiam da cidade, entregava sempre um pacotinho com biscoitos de nata bem fresquinhos para distrair na viagem. Aos que chegavam, esperava com o chá ou café, o que a saudade pedisse. Eu dei adeus à Maria Fumaça e ganhei uma lanterna de lembrança do maquinista que um dia quisera ser meu noivo. Tive muitos pretendentes. Para todos tive um sorriso, uma palavra amiga, às vezes até um docinho de frutas, mas nunca dei meu coração. Eu sonhava com as estrelas, ajudava os bebês a nascerem, preparava as grinaldas para os casamentos, arrumava o andor da santa e o presépio no Natal. Minha vida era cheia de afazeres, e a minha janela era do tamanho do mundo.Mas um dia eu não abri a janela. Não fiz o café. Acordei com desmemória, cansada dos fazeres e lembranças. Uma vida de muitos anos traz muitos cansaços, menina.

Joaquina se calou depois de vazar suas memórias e entregou o corpo à sua respiração cansada. Acompanhei seu silêncio, e aproveitei o sol imaginando a vida que Joaquina tivera. Não percebi o tempo passar até que o sinal do almoço me despertou.

- Hora do almoço. Vamos, Joaquina?

Joaquina me olhou com olhos vagos. Procurou algo ao redor e fez uma careta.

- Quem é Joaquina?

- Joaquina é minha amiga - disse eu, sorrindo – e vamos logo, antes que a comida esfrie.

Fizemos, em silêncio, o caminho de volta em passos lentos e lembranças desbotadas.

 

 

 

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