Persona non grata
 



Contos

Persona non grata

Carlos Eduardo Simão




- Senhores jurados e demais membros desta corte da cidade-sideral de Neo Paulo. Eu, juiz Wilson Hill, no ano da graça de 2080, faço crer que o réu em questão será julgado com toda a lisura e transparência que nosso supremo Estado exige. Queiram sentar-se. Que comece o julgamento. Seu nome?

- Roberto.

- Roberto de quê?

- Roberto Hobb.

- Senhor Hobb, jura dizer a verdade e nada mais que a absoluta verdade?

- Sim senhor.

- O senhor está sendo acusado de homicídio pela polícia da cidade-sideral de Neo Rio pelo assassinato de uma RoboGirl dentro de um motel-sex-space no ano de 2078.

- Senhor Meritíssimo, declaro diante desta corte que matei em legítima defesa.

- Sua declaração é totalmente inverossímil a esta corte, senhor Hobb uma vez que não há a menor possibilidade de tal fato acontecer.

- Senhor Meritíssimo volto afirmar que digo a mais absoluta verdade.

- Impossível. Está, por acaso, tentando nos fazer passar por idiotas, senhor Hobb?

- Não, Senhor Meritíssimo. Eu só estou dizendo que...

- Todos nós sabemos que RoboGirls são bonecas cibernéticas criadas e rigorosamente programadas somente para proporcionar prazer sexual. Por conseguinte é absolutamente inadmissível a hipótese de que uma RoboGirl possa tentar contra a vida de um ser humano.

- Senhor Meritíssimo, eu posso provar o que estou dizendo.

- Senhor Hobb, devo lembrá-lo de que desde a assinatura do tratado de Frankfurt, em 2071, oficializando as bonecas cibernéticas como agentes de saúde pública, tendo sua denominação de fábrica alterada para RoboGrirl, as RoboGirl passaram a ser propriedade do governo. Portanto senhor Hobb, todo e qualquer atentado contra um agente oficial é, portanto, um atentado contra o próprio Estado.

- Senhor Meritíssimo, afirmo mais uma vez que eu...

- Senhor Hobb, pelo que consta nos autos do processo, o seu sexcard é falso. Ou seja, o senhor não tem autorização sequer para se aproximar de uma RoboGirl. Muito menos para desprogramá-la. Não satisfeito o senhor foi além; o senhor desativou e destruiu uma propriedade do governo. Esta corte não terá clemência.

- Senhor Meritíssimo, o Estado não pode condenar um homem por se defender do ataque de uma máquina.

- Não cabe ao senhor dizer o que o Estado deve ou não deve fazer, senhor Hobb. Sabemos quem é o senhor, o seu ataque foi premeditado. O senhor nos insulta com sua ingenuidade ao ignorar o fato de não haver mais mulheres entre nós desde que elas foram hibernadas ou deportadas para as colônias penais nas luas de Saturno.

- Eu odeio RoboGirls, senhor Meritíssimo. Odeio tudo que esta corte representa. Não nego que a assassinei. Com que prazer destrui cada peça, cada circuito e cada mecanismo daquela aberração. Bonecas cibernéticas não são a solução para evitar a propagação do vírus mortal. Esta corte pode me condenar. Pode me matar se quiser. A nossa causa não morrerá comigo. Ela já foi disseminada por todas as cidades-siderais. Outros se levantarão em prol da resistência. A guerra já foi declarada.

- Senhor Hobb, quanto à sua causa inútil devo informá-lo de que o Estado já providenciou medidas coercitivas para neutralizar e eliminar o seu bando de subversivos– o juiz se vira para o público e para o júri - Diante de tal declaração tão peremptória e de todas as provas anexadas nos autos do processo. Este júri, esta corte e o poder a mim conferido pelo nosso sagrado Estado, declararam que o réu foi condenado à pena de expulsão perpétua. O senhor foi sentenciado a viver exilado em um satélite prisional de Júpiter sentença que deverá ser cumprida total e integralmente desde já. O réu Poderá ser visitado esporadicamente sob a vigilância ampla geral e irrestrita da aliança interplanetária dos estados intergalácticos. Declaro encerrada esta audiência.


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