No céu e na terra
 



Contos

No céu e na terra

Stephanie Claro




A lei da gravidade afirma que todo corpo é puxado para o centro da Terra e esta, por sua vez, se move em direção aos objetos que lhe são lançados. Em Printipia essa lei também é válida, exceto para uma situação: suicídios. Quando uma pessoa se mata, ela não cai: ela voa.

A paisagem repleta de corpos flutuantes aterrorizava os turistas e, com isso, os ganhos recebidos pelos governantes com a taxa de receptação de passageiros vindos de outros lugares teve uma queda estrondosa, fazendo com que uma ação fosse tomada.

Em vez de tratar o assunto como uma calamidade, o departamento de marketing de Printipia reverteu a situação e transformou as mortes em um negócio rentável: o lugar passou a ser conhecida como a “cidade dos corpos flutuantes”, ou, como a chamavam na mídia, “Corpus Au Air”.

O plano funcionou e a cidade viu as acomodações de seus hotéis ficarem lotadas: pessoas de todos os lugares vinham tirar fotos com os famosos balões.

Todos olhavam para o céu, maravilhados com a incrível aurora criada pelas cores das peles dos mortos, as listras de suas roupas e a agonia de suas faces. O mundo olhava para o alto e, por isso, não percebeu quando um corpo apareceu no centro da rua, logo em frente ao Palácio de Printipia; mas a situação não parou por ai: dia após dia corpos brotaram em frente ao Palácio, criando uma espécie de jardim grotesco de cadáveres.

Printipia foi tomada pelo furor da notícia: corpos foram encontrados, e eles não voavam. Demorou um pouco para entenderem que a situação era atípica, pois não se tratavam de suicídios: haviam sido assassinados.

Ao todo foram reunidos nove corpos: todos homens. Não era necessário muito estudo ou análise para descobrirem quem eram: antigos padres, velhos sacerdotes das catedrais esquecidas. Em Printipia não vigorava mais nenhum tipo de religião ou devoção, a não ser o culto ao individualismo e ao governo regente.

As atenções estavam voltadas para o solo daquela cidade e, desta forma, apenas após o aparecimento de uma enorme sombra junto ao castelo é que perceberam que havia outro corpo de padre – desta vez, flutuando.

Análises foram feitas e, assim, descoberto que todos os homens foram envenenados. Após uma série de xícaras de café e inúmeras tarde perdidas, o quebra-cabeça foi completado: uma carta foi encontrada junto ao corpo do padre suicida.

Segundo ele, aqueles homens acreditavam na sua religião e a situação em que se encontrava Printipia naquele momento era o oposto de seus ideais e de suas convicções. Desta forma, após uma última celebração de sua fé, os padres fizeram um pacto: durante dez dias cada um ia morrer em frente ao Palácio; mas não se matariam, seriam mortos por seus amigos – cada padre mataria o outro. Seria um protesto contra a cidade e seus governantes: uma mancha de sangue no tapete verde do jardim do Palácio.

Desta forma, dia após dia, um corpo caia no chão de Printipia e, no último dia, um outro levantou voo. O pacto estava finalizado.

Investigações concluídas, o departamento de marketing resolveu tomar uma atitude: preencheu cada um dos corpos com gás e os lançou junto ao corpo do padre suicida, de modo a formar um excêntrico monumento ao redor do Palácio.

Apesar do ato contra a cidade de Printipia, os governados resolveram prestar uma última homenagem aos padres: estes, estudiosos de uma religião esquecida, agora estariam para sempre no céu, e não na terra.


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